sábado, 31 de maio de 2008

Memórias

Ontem foi dia de Tertúlia do Clube dos Leitores Sem Tempo, com o tema "Histórias e Memórias".
Uma das tertulianas leu um texto que me fez recuar largos anos. Um vinil oferecido . A voz suave e timbrada de Rui de Carvalho. Ouvido vezes sem conta. Depois guardado no baú da vida.
DESIDERATA

Vai serenamente por entre a agitação e a pressa e lembra-te da paz que pode haver no silêncio. Sem seres subserviente, mantêm-te, tanto quanto possível, em boas relações com todos. Diz a tua verdade calma e claramente e escuta com atenção os outros, mesmo que menos dota­dos e ignorantes; também eles têm a sua história. Evita as pessoas barulhentas e agressivas; são mortificações para o espírito. Se te comparas com os outros podes tornar-te presunçoso e melancólico porque haverá sempre pessoas superiores e inferiores a ti. Apraz-te com as tuas realiza­ções tanto como com os teus planos. Põe todo o interesse na tua carreira ainda que ela seja humilde; é um bem real nos destinos mutáveis do tempo. Usa de prudência nos teus negócios porque o mundo está cheio de astúcia; mas que isto não te cegue a ponto de não veres virtude onde ela existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e em todo o lado a vida está cheia de heroísmo. Sê fiel a ti mesmo. Sobretudo não simules afeição nem sejas cínico em relação ao amor porque, em face da aridez e do desen­canto, ele é perene como a relva. Toma amavelmente o conselho dos mais idosos, renunciando com graciosidade às ideias da juventude. Educa a fortaleza de espírito para que te salvaguarde numa inesperada desdita. Mas não te atormentes com fantasias. Muitos receios surgem da fadiga e da solidão. Para além de uma disciplina salutar, sê gentil contigo mesmo. Tu és um filho do universo e, tal como as árvores e as estrelas, tens direito de o habitar. E quer isto seja ou não claro para ti, sem dúvida que o universo é-te disto revelador. Portanto, vive em paz com Deus seja qual for a ideia que Dele tiveres. E quaisquer que sejam as tuas lutas e aspirações, na ruidosa confusão da vida, conserva-te em paz com a tua alma. Com toda a sua falsidade, escravidão e sonhos desfeitos o mundo é ainda maravilhoso. Sê cauteloso. Luta para seres feliz.
Max Ehrmann
Tradução livre de Maria Luisa Peixoto

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Os Vizinhos

Ontem foi o Dia Europeu do Vizinho. Não estranhei, pois agora é moda haver dias para tudo e todos os gostos.
Os vizinhos já não são o que eram.
Dantes, todos se conheciam, pelo menos de vista. Podíamos sempre contar com o vizinho, que estava em casa, para nos assinar a carta registada que vinha pelo correio, para nos recolher a garrafa de gás deixada pelo distribuidor, para entregar a contagem da água ou da luz ou para ficar com os miúdos que chegavam da escola. A vizinhança era uma comunidade de ajuda. Claro que havia os “cuscos” e os mal-encarados. Os primeiros eram tratados com tolerância e ficavam só a saber o essencial de qualquer informação. Quanto aos segundos, um bom dia, às vezes nem isso, chegava. Eram os tempos das ruas de casas térreas, dos largos ou dos pátios.
Agora já quase que não há vizinhos. Há o do rés-do-chão, do 2º esquerdo, do 5º direito ou do recuado do 8º ou 9º. Saem de manhã, não vêm almoçar e geralmente chegam à noite. Os miúdos passam o dia na escola, o gás é comprado na bomba mais próxima e as leituras do gás e água enviam-se por e-mail. Aos fins-de-semana avistamo-nos nos elevadores e reconhecemo-los nos corredores dos centros comerciais. São os tempos dos blocos de apartamentos, das urbanizações, dos dormitórios.
É pena. Os vizinhos fazem-nos falta. Este Dia europeu é uma tentativa, pouco divulgada, de repor a sua importância. De trazer de volta a entreajuda e a solidariedade.

sábado, 24 de maio de 2008


25 de Maio é o Dia de África.
Celebremos esse continente assolado por cheias, secas, guerras, fomes e doenças, dando as mãos no que estiver ao nosso alcance. Ajudemos com livros para as escolas, roupas para os desalojados ou medicamentos. Divulguemos os seus escritores, os seus poetas, a sua arte, a sua música. Celebremos África com solidariedade.
Elejo, neste canto, algumas coisas belas: pintura, escultura, cerâmica e letras.




O artista mais conhecido de Moçambique, o carismático Malangatana Ngwenya foi nomeado Artista UNESCO para a Paz em 1997.
Malangatana nasceu em 1936 em Matalana, sul de Moçambique. Os seus primeiros anos de vida foram passados em Escolas de Missões e ajudando a sua mãe no trabalho no campo.
Em 1958 Malangatana frequenta o Núcleo de Arte, com o apoio do pintor Zé Júlio. No ano seguinte, Malangatana tem o seu trabalho exposto publicamente pela primeira vez numa exposição colectiva e dois anos mais tarde, realiza a sua primeira individual, com 25 anos. Em 1963 a sua poesia é publicada na revista 'Black Orpheus' e na antologia 'Modern Poetry from Africa". No ano seguinte, Valente Malangatana é preso pela polícia secreta (PIDE) e passa 18 meses na cadeia. Em 1971 recebe uma bolsa da Fundação Gulbenkian e estuda gravura e cerâmica. Desde 1981 trabalha exclusivamente como artista.
O trabalho de Malangatana projecta uma visão ousada da vida onde há uma comunhão entre homens, animais e plantas. Baseia-se na sua 'herança' mas simultaneamente abraçando símbolos de modernidade e progresso, síntese entre arte e política.
extraído de: "Contemporary Africa Database"


Travessa em cerâmica


Inácio Matsinhe nasceu em Maxixe, Moçambique em 1945. É um dos grandes nomes das artes plásticas Moçambicanas.
Fortemente ligado à sua terra natal, a sua pintura e cerâmica mostram geralmente cores vivas e quentes: encarnados, amarelos e azuis-cobalto mas também por vezes nostálgicas com amarelos e verdes.
Matsinhe expõe regularmente desde os anos 60 em todo o mundo desde Portugal e Espanha ao Reino Unido (African Center- Londres) ou aos Estados Unidos (World Surrealist Exibition - Chicago). O seu trabalho está representado em inúmeras colecções privadas mas talvez a sua obra mais emblemática seja o enorme painel de azulejos na Av. Gago Coutinho em Lisboa.
extraído de: "Cerâmica e Escultura" (2002) - C.Bajouca ; "Arte 98" (1998) - F.I. do Carmo





Nascida em 1964, Colleen Madamombe detém um papel de inspiração no movimento de escultura devido ao facto de ser uma das poucas mulheres escultoras no Zimbabué e considerada frequentemente mais importante.
O seu trabalho adiciona uma nova dimensão à complexidade da escultura em pedra no Zimbabué pelo compromisso e fidelidade a um tema. Madamombe utiliza as suas capacidades artísticas e técnicas para realçar as características das mulheres Shona, bem como para chamar a atenção para as desigualdades que afectam as suas vidas.
extraído de : "Life in Stone, Zimbabwean Sculpture", Olivier Sultan, 1994



Abias Ukuma jovem pintor Angolano

POEMA MESTIÇO
escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico
sangro norte
em coração do sul
na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo
hei-de começar mais tarde
por ora
sou a pegada
do passo por acontecer

Mia Couto

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Eugénio Tavares

EUGÉNIO TAVARES :1861-1930
Nasceu na Brava (Cabo Verde). Autodidacta, funcionário publico, jornalista e polemista. Dramaturgo, ficcionista e poeta. Paradigma da crioulidade, autor de inúmeras mornas.
Foi na poesia crioula que Eugénio mais se notabilizou, pela construção de um estilo, um dos primeiros compositores a sistematizar a “sodade”, a “partida” e que compôs a primeira morna dedicada à “hora di bai”.

Canção ao Mar (Mar Eterno)
Oh mar eterno sem fundo,
Sem fim
Oh mar de túrbidas vagas,
Oh mar!
De ti e das bocas do mundo
A mim
Só me vem dores e pragas,
Oh mar!
Que mal te fiz,oh mar, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas
Suspende a zanga um momento
Escuta
A voz do meu sofrimento
Na luta
Que o amor acende em meu peito
Desfeito
De tanto amar e penar, oh mar!
Que até parece oh mar, oh mar
Um coração a arfar, a arfar
Em ondas pelas fráguas
Quebrando as suas máguas
Dá-me notícias do meu amor, Amor
Que um dia os ventos do céu, Oh dor!
Nos seus braços furiosos
Levaram
E ao meu sorriso, invejosos,
Roubaram
Não mais voltou ao lar, ao lar
Não mais o vi oh mar, oh mar
Mar fria sepultura
Desta minha alma escura
Roubaste-me a luz querida
Do amor,
E me deixaste sem vida
No horror
Oh alma da tempestade
Amansa,
Não me leves a saudade
E a esperança
Que esta saudade, é quem, é quem
Me ampara tão fiel, fiel
É como a doce mãe
Suavíssima e cruel
Mas máguas desta aflição
Que agita
Meu infeliz coração,
Bendita,
Bendita seja a esperança
Que ainda
Lá me promete a bonança
Tão linda!

Mia Couto


Melhor que ninguém, Mia Couto sabe recriar palavras e cada uma delas encerra um mundo de significados.



Os filhos desistiram. A Canhoto lhe custava simplesmente existir. Morrer é fácil, difícil é existir-se morto, simplesmente havido, quieto, inestudável. E mais, aliás, menos nada. Tonico ficara assim desde que sua mulher Razia desaparecera, ida sabe-
-se com quem, desconhece-se para onde. Fora há uns anos, mas a ferida era ainda maior que a cicatriz. Quando sucedeu, nesse tempo em que tudo era tudo, Canhoto anunciou aos numerosos filhos:
- Vossa mãe, meus filhos. Vossa mãe, ela faleceu.
Todos sabiam que era mentira. Ela tinha desistido de constar, tentada em mulherar-
se em outros lugares. Deixado o marido em órfã viuvez, desconsolado.
Tinha-se passado tempo, os miúdos cresceram, se graúdaram e se graduaram em pais e mães. O que sobrava agora eram netos. Naquela tarde, fazia anos que a avó saíra. Falecera, como dizia o avô Canhoto. A família se juntava como era costume.


Contos do Nascer da Terra, A Palmeira de Nguézi

terça-feira, 20 de maio de 2008

Alda Lara

ALDA LARA (Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou já um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI). Figura em: Antologia de poesias angolanas,Nova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa - Angola, Lisboa, s/d (196?)1; Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963; Mákua 3, idem; Antologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva (c), Lobito, 1973.
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TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
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PRESENÇA AFRICANA

E apesar de todo, ainda sou a mesma!
Livre esguia, filha eterna de quanta rebeldia me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou, a Irmã-Mulher de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros, de cabeleiras verdes
e corpos arrojados sobre o azul...
A do dendêm,
nascendo dos abraços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando pelos carregadores do cais,
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...),
pelos meninos de barriga inchada e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...
E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela longa história inconsequente...
Minha terra...
Minha, eternamente ...
Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo,
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu povo!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

África


Tenho uma de grande admiração por África. No entanto, a visão romântica que tenho dela, não passa ao lado da pobreza de Moçambique, da crise do Darfur, da prepotência política no Zimbabwe ou da loucura em Angola.
Esta, digamos que, ligação a África advém das minhas costelas negras, herdadas da avó Conceição, filha ilegítima de um mulato rico estabelecido aqui no Algarve. Esta avó de pele branca, mas de nariz largo e boca grossa, gerou muitos filhos dados às cantorias e com pé para a dança. As gerações a seguir a ela, puxaram para o Fado e apreciam música bem ritmada. No que me toca, não fugi a nada disto. E também lhe acrescentei a admiração pelos espaços abertos, pela falta de pressa no dia a dia e pelo sentido prático das coisas.
Gosto da escrita africana, prosa ou poesia, seja em português com sotaque, seja em português com palavras recriadas ou inventadas, seja em crioulo. As palavras tomam a cor da terra, ganham a maciez da pele, respiram o ar quente, espraiam-se à frente do mar que visita as baías, gritam liberdade.

Por isso quero partilhar algumas coisas que me fazem companhia naqueles buracos vazios do tempo preenchido.

Provérbios Africanos II

Continuando nos provérbios africanos, estes são em crioulo da Guiné-Bissau, mas comuns a Cabo-Verde:
Bardadi i suma malgeta: i ta iardi (= a verdade é como a malaguete: ela arde)
Bariga i ka ta kosadu ku laska di kana (= não se coça a barriga com lascas de cana)
Bu na toka bu na baja (= você toca, você dança)
Dinti mora ku lingu, ma i ta daju i murdil (= os dentes moram com a língua, mas às vezes eles a mordem)
Dun di boka ta tene pe (= quem tem boca não se perde no caminho)
Dun di un uju ka ta brinka ku reia (quem tem olho não brinca com areia)
E fila suma gatu ku kacur (= eles se dão como gato e cachorro)
Beju ki jokoni ta ma uja lonji di ke mininu ki sikidu (= um ancião acocorado vê mais longe do que um menino em pé)
Ken ki ma bu leña, ta ma bu sinsa (= quem é mais lenha do que você é também mais cinza)
Na no kombersa, ka bu pui boka, pui oreja (= em nossa conversa, não ponha a boca mas o ouvido)
Papagaiu ta kume miju, pirikitu ta paga fama (= papagaio come milho, periquito leva a fama)
Sapatu beju ka ta perta si dunu (= sapato velho não aperta o dono)
Sigridu di boka ka ta kanba dinti (= segredo de boca não deve ultrapassar os dentes)
Un son mon ka ta toka palmu (= uma mão sozinha não bate palmas)
Retirado de um texto de Hildo Honório do Couto
Departamento de Lingüística
Universidade de Brasília

sábado, 17 de maio de 2008

Sabedorias

Estou na onda da metáfora. Sempre achei que as entre-linhas eram melhores do que elas.

Provérbios africanos

Quem tem um ovo no saco não dança.
Mesmo que o leopardo durma, a ponta da sua cauda não dorme.
Pouco a pouco o algodão torna-se pano.
É na estação seca que se faz amizade com o timoneiro da piroga.
Não se espera pelo dia de marcado para engordar a galinha.
Quem põe demasiado de lado, acumula para o rival.
Quando se foi mordido pela serpente até se foge da centopeia.
Cada fio de água tem o seu caminho.
Um mau amigo impede que tenhas bons.
Se gostas do cão, gostas também das suas pulgas.
É melhor passar a noite com a cólera da ofensa do que com o arrependimento da vingança.
Caminha sempre à frente de ti mesmo , como o camelo que conduz a caravana.

Fabularium

Trago aqui esta fábula por dois motivos. O primeiro é pela riqueza vocabular. O segundo é pela sua relação intensa com o presente. Não há dados adquiridos, pelo que ninguém julgue que está seguro por mais forte que pareça ser. Os fracos vergam mas não quebram.

O Carvalho e o Junco
Disse um dia o carvalho ao junco da ribeira:
“Bem te podes queixar! É triste o teu destino!
O peso de um pardal p’ra ti é uma canseira.
E um ventinho qualquer, suave e fino,
Que mal enrugue as águas e estremeça,
Logo te faz curvar e baixar a cabeça!
Eu não!... A minha fronte, altiva e bela
Barra o caminho ao sol nos arredores do Verão,
E no Inverno defronta as fúrias da procela!
O que p’ra mim é brisa é para ti tufão!
Ainda se nascesses ao abrigo
Destas minhas ramagens opulentas
Não correrias tanto perigo,
Eu te defenderia das tormentas…
Mas quase sempre nasces- azarento!-
Nos húmidos umbrais dos domínios do Vento.
Como lamento esse teu fado injusto!”
“A tua compaixão”, lhe respondeu o arbusto,
“Vem de um bondoso coração…
Mas não te aflijas sem razão.
Os ventos são p’ra mim menos perigosos
Do que são para ti.
Eu dobro mas não quebro. E tu, se até aqui
Aguentaste os assaltos impiedosos
Sempre de pé, sem te curvar,
Espera até ver…” Mal acabara de falar,
Do fundo do horizonte acode, enfurecido,
O vento mais terrível e aguerrido
Que o Norte alguma vez gerou.
O carvalho aprumou-se; o caniço vergou.
Voltou o vento à carga – e num rompante
Arrancou p’la raiz o frondoso gigante
Que erguia até ao céu a majestosa fronte
E mergulhava os pés nas entranhas do monte.

Fábulas de LaFontaine, tradução de Esther de Lemos