segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Natal


Quando Um Homem Quiser

Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão


E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão


Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão


E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão


Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Ary dos Santos

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia a condizer

Almada Negreiros

Esperança:

isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.


Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

 
Miguel Torga
 
Não sei quantos seremos, mas que importa?!

Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Incoerências

Vivemos tempos de incoerência.
Uma das notícias de hoje na televisão apresentava o insólito caso de um casaco velho que levou quatro anos a percorrer os corredores da Justiça ansiando pelo descanso eterno numa qualquer lixeira urbana. A saga envolveu juizes, ministério público, advogados e demais funcionários do aparelho tribunalício. Gastou-se do erário público, desgastou-se mais o desgastado casaco.
Se isto não é o exemplo acabado da incoerência, vou ali e já volto!
Dizem os (des)entendidos que o país atravessa graves necessidades e que é preciso poupar. Então e os gastos?
Hão-de vir por estes dias uns senhores engravatados realizar uma cimeira. Dos proveitos ou proventos que trarão ao país pouco se descortina. Mas vai-se gastar e muito.
Havia antigamente aqui pelos meus lados um ditado que dizia: é como em Monchique, tapa-se a cara e o resto que se trompique...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Acertos...temporários


Li algures na internet que:

« Em 1582, durante o papado de Gregório XIII (Ugo Boncampagni, 1502-1585), o equinócio vernal já estava ocorrendo em 11 de Março, antecipando muito a data da Páscoa. Daí foi deduzido que o ano era mais curto do que 365,25 dias (hoje sabemos que tem 365,242199 dias). Essa diferença atingia 1 dia a cada 128 anos, sendo que nesse ano já completava 10 dias. O papa então introduziu nova reforma no calendário, sob orientação do astrónomo jesuíta alemão Christopher Clavius (1538-1612), para regular a data da Páscoa, instituindo o Calendário Gregoriano.

As reformas, publicadas na bula papal Inter Gravissimas em 24.02.1582, foram:

- tirou 10 dias do ano de 1582, para recolocar o Equinócio Vernal em 21 de Março. Assim, o dia seguinte a 4 de Outubro de 1582 (quinta-feira) passou a ter a data de 15 de Outubro de 1582 (sexta-feira). »

Não sendo nova para mim (e para outros) esta informação, dou comigo a pensar como seria, nos dias que correm, acontecer tal facto.
Provavelmente era o caos, a começar pelas programações das TV's no que a telenovelas diz respeito. Depois seguir-se-iam outras "chatices", nomeadamente, para os aniversariantes desses desaparecidos 10 dias, que ficariam privados das prendas e das festas, já para não falar dos casamentos ou dos divórcios marcados antecipadamente para essa data. E os cheques a descontar nesse intervalo de tempo? Lá se iam os pagamentos e os recebimentos. A falta que esses dez dias nos iriam fazer era qualquer coisa do além!
Só num pormenor estariam na proporção correcta: no corte do ordenado - menos dinheiro ficaria a condizer com menos dias de trabalho! É pena que este encurtamento tenha sido há 500 anos e para um mês só.
Há 5oo anos, estas deslavadas linhas estariam a navegar nas profundezas do Tempo, afundando-se na sua não-existência.

imagens da net

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

E Agora?

Podia escrever aqui bastas letras de descontentamento. Podia, mas... não era a mesma coisa. Andamos de decepção em decepção. Uns parece que conseguem ver a luz ao fundo do túnel, mas outros nem o túnel enxergam, apesar dos encontrões e empurrões.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Acreditar, com Serenidade

Para tudo há um tempo


Debaixo do céu há momento para tudo
E tempo certo para cada coisa:


Há um tempo de nascer e tempo de morrer;


tempo de plantar e tempo de arrancar;


tempo de matar e tempo de curar;


tempo de derrubar e tempo de construir.


Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar;


tempo de chorar e tempo de dançar;


tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las;


tempo de abraçar e tempo de afastar.


Há tempo de procurar e tempo de perder;


tempo de economizar e tempo de desperdiçar;


tempo de rasgar e tempo de remendar;


tempo de ficar calado e tempo de falar.




Há tempo de amar e tempo de odiar;


tempo de guerra e tempo de paz.

Eclesiastes 3:1-8

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Céu de Estrelas

Neste princípio de semana foram lembradas duas datas: o 33º aniversário da morte de Elvis Presley e o 50º aniversário do primeiro concerto dos Beatles.
Estrelas no céu da fama que marcaram gerações e fizeram história.





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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Laços

Jean-Baptiste-Siméon Chardin
A Jovem Professora (1736)


Visitações, ou o poema que se diz manso

De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.


Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luisa Amaral

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ria Formosa

Ria Formosa

Nasci na ria formosa

Sou filha deste sapal
neta da moura de Bias
Sou de Floripes rival
nesta ria fui nascida num dia de claridade
na luz do sol ao meio dia
Em Agosto sou a acalmia
Sou o vento beduíno
o velho o moço o menino
que há em cada pescador Sou o desgosto e a dor
Vela ao senhor dos aflitos
Sou mãe de todos os gritos Padroeira do pavor
que assalta quem é perdido
e de quem teme perder o irmão o pai o marido
Sou a santa no andor em dia de procissão
Sou a rameira de Olhão -
Apelido que a inveja
das puritanas me deu-
Pois da braveza do mar
da escalmorrice da vida me veio a pele sertaneja
e o sangue a ferver no corpo que todo o homem deseja
Sou filha da luz da lua
gerada na noite escura numa cópula sem rosto
Sou filha dos homens todos
e de todas as mulheres Irmã de todas as vagas
Sou amiga das diabas
Sou amante dos diabos e dos ventos desgarrados
atiçados a sueste
que se lançam contra a duna
Sou vulgar e importuna Rainha dos meus humores
no castelo aonde abrigo os corpos dos pescadores
que a maré por devaneio resolve levar consigo
Olho o esteio de cada barco que entra e sai aquela barra
por onde eu saía à garra para depois na enchente
ser levada na corrente
e aos beijos e abraços entrar de novo à deriva
neste berço
nesta ria
que me viu nascer poeta para em meus versos ou prosa
cantar até rebentar este braçado de mar
a que chamaram Formosa.

Julieta Lima, in http://hienas.blogs.sapo.pt/
foto minha

domingo, 1 de agosto de 2010

Agosto


Poesia de Agosto

Foi em Agosto que descobri
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha
Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos
Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço...
Uma dádiva...
Vem porque é Agosto
E quero cantar-te...


Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
imagem da net

sábado, 31 de julho de 2010

Celebrar a Vida




Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraiso?
...Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?



Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
E só de mim que ando delirante
-Manhã tão forte que me anoiteceu.

imagem: NOITES DE ANTO, De Mário Caudio, Casa da Comédia - 1988
poema: Mário Sá-Carneiro
António Feio (1954-2010)


sábado, 24 de julho de 2010

No tempo das cerejas...

Ela dizia que tinha nascido no mês das cerejas, por não saber exactamente quando. Mas o que ela sabia bem era cantar. Amália cantou, muito e bem. Um dia deitou-se a escrever versos. Palavras e rimas, onde o amor soava a dor e a sorte encontrava-se na morte.




Horas de Vida Perdida



Horas de vida perdida
à procura de viver
Vai-se à procura da vida
Não a encontra quem quer


Quem sou eu para dizer
Quem sou eu para o saber
Nem sei se sou ou não sou
Ninguém pode conhecer
Isso de ser ou não ser


Sem saber sei entender
Assim sei o que não sei
Sinto que sou e não sou
Entre o que sei e não sei
A minha vida gastei
Sem conseguir entender


Ai quem me dera encontrar
As rimas da poesia
Ai se eu soubesse rimar
Tantas coisas que eu dizia
Amália Rodrigues, Versos






domingo, 4 de julho de 2010

Poesia

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quarta-feira, 23 de junho de 2010

São João

Ó meu rico São João,

Vira a cara para o lado,

Já me queimei na fogueira,

Não cumpri o combinado.

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Jurei saltar a fogueira

E meus pecados limpar.

São João, já fiz asneira,

E, assim, não posso casar.

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São coisas de antigamente,

E já ninguém quer saber!

Mas São João será sempre,

para bailar e beber.

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Duo Ouro Negro, Maria Rita

Quadras minhas

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

José Saramago por António

Retrato do Poeta Quando Jovem

Há na memória um rio onde navegam

Os barcos da infância, em arcadas

De ramos inquietos que despregam

Sobre as águas as folhas recurvadas.


Há um bater de remos compassado

No silêncio da lisa madrugada,

Ondas brancas se afastam para o lado

Com o rumor da seda amarrotada.


Há um nascer do sol no sítio exacto,

À hora que mais conta duma vida,

Um acordar dos olhos e do tacto,

Um ansiar de sede inextinguida.


Há um retrato de água e de quebranto

Que do fundo rompeu desta memória,

E tudo quanto é rio abre no canto

Que conta do retrato a velha história.

José Saramago

sábado, 12 de junho de 2010

O Zé Povinho



O Zé Povinho comemora 135 anos! E o seu gesto continua tão propositado como na altura em que foi criado por Rafael Bordalo Pinheiro. Então nestes últimos meses, creio bem que o Zé nunca teve tempo de descansar os braços. Coitado, deve estar cheio de artroses nos cotovelos!


Esta semana lá tivemos mais uma comemoração do 10 de Junho. Descentralizada, como convém, com a novidade de um desfile militar encabeçado por ex-combatentes , conveniente a algumas consciências com passados mal resolvidos e presentes cheios de desculpas. Mais umas fitas e medalhas que, com honrosas excepções, vão enfeitar as salas e os pechichés de uns quantos pavões sem obra mas que, pelos vistos, engrandeceram esta pátria à deriva de sonhos e de escolhos.


Nesta semana, também, deu-se o tiro de partida para duas grandes festas. Primeiro, para o Mundial de futebol. Delírio supremo do desporto de bola, onde a nossa selecção vai procurar um lugar ao sol, que em África há em abundância. Se calhar, muito foguete antes da festa, bem à portuguesa, este ano com o acréscimo do som das vuvuzelas, que prometem embezourar a cabeça de adeptos e jogadores. Segunda festa, a dos Santos Populares. Esta sim, bem nossa. Começa pelo Santo António, que em Lisboa dá brado. Passa depois ao Porto, onde o São João brilha mais com as luzes na Ponte. O São Pedro tem festejos em muitas localidades, a fechar com chave de ouro.

Bem que precisamos de animação! Não daquela que nos faz andar numa fona, com gripes, vacinas, crises, taxas de juro, impostos e quejandos a driblar processos, escutas, disse, não disse, vendo, não vendo, acaba, não acaba, sabia, não sabia. Uff!! Não, não é desta animação que falo. É da outra, daquela que nos faz esquecer tudo, que nos faz sentir crianças - dê-me um tostãozinho para o santinho!- que nos faz rir, estar com os amigos, cantar e dançar até ser dia. Estamos precisados de um intervalo - o programa segue dentro de momentos- que nos poupe a cabeça de ideias estapafúrdias e calamitosas.


Vamos, pois, ver o futebol, comer uma sardinhada, dar um pézinho de dança, e pode ser que desta vez o Zé Povinho possa engrandecer a Pátria e para o ano seja condecorado no 10 de Junho.


Ó meu rico Santo António
Vê se à crise dás um jeito
Traz também a dignidade
E um pouco de respeito


São João, tu és um Santo
Bem português e só nosso
Não deixes que eles nos comam
desde a carne até ao osso


São Pedro das brancas barbas
empresta sabedoria
aos que inventam à noite
p'ra mandar fazer de dia

Quadras da minha autoria e imagns da net

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pescador


Sou filha e neta de Pescadores. O Mar e as lides da pesca sempre fizeram parte da minha vida. Agora tudo mudou e tudo é diferente. Já não tenho a pesca, mas continuo a ter o Mar dentro do coração e ao alcance da vista.
Esta é a minha humilde homenagem:
Poveiro

Poveirinhos! meus velhos pescadores!
Na Agoa quizera com vocês morar:
Trazer o lindo gorro de trez cores,
Mestre da lancha Deixem-nos passar!
Far-me-ia outro, que os vossos interiores
De ha tantos tempos, devem já estar
Calafetados pelo breu das dores,
Como esses pongos em que andaes no mar!
Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
Mailo irmão do «Senhor de Mattozinhos»!
No alto mar, às trovoadas, entre gritos,
Promettermos, si o barco fôri intieiro,
Nossa bela à Sinhora dos Afflictos!

António Nobre, in 'Só'

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Crónica de nada

Ai, blog, blog, que te quis diário, ou pelo menos assíduo, e agora para aqui andas a fintar o tempo, falando aos soluços, com pouca vontade de conversar.
Não é que não tenha havido motivos de conversa, serena ou exaltada. Não senhor. Estas duas últimas semanas então...foi um festival, de gritos, de palavras, de discursos.
Houve festa, muita festa vermelha a encher o peito dos adeptos do futebol, que de outro desporto não se costuma tecer tamanhas e alcandroadas glórias.
Glória aos céus, gritaram outros adeptos no fervor das bandeirinhas e das camisas estampadas que receberam o Papa Bento XVI, figura máxima de uma Igreja Católica que se deseja purificada de uns salpicos mal-amados. Fátima foi o altar do mundo, coadjuvada pelas duas capitais do país.
Pouco amado e quase deserto de adeptos andou o Fado durante alguns anos. Ficou fora de moda e andou por aí erradamente aparentado com um nacional-cançonetismo que trazia más memórias. Qual náufrago abandonado à sua sorte que vê aparecer terra no horizonte, o Fado ressurgiu em vozes frescas que passeiam por outras sonoridades e eis que se torna o centro das atenções, deslizando majestoso direito a uma candidatura a património mundial.
E para terminar estas semanas de "F"'s veio o plano de austeridade para salvar este país das incongruências do nada. Uns dizem que sim, que é preciso sacrifícios para remediar a coisa. Uns dizem que não, que quem comeu a carne que roa agora os ossos. Uns dizem que isto está mesmo por um fio. Outros dizem que estamos a crescer mais do que se pensava e que estamos à frente não sei de que fila... É aqui que entra o tal "f" , que eu, por pudor linguístico e não querendo incentivar o uso de mediocridades vocabulares, me escuso de completar.

Afinal, meu bloguesito de estimação, sempre deitaste cá para fora o que aí tinhas guardado. Não era nada, mas sempre ficaste aliviadito.

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E para celebrar o Dia da Literatura da Galiza, recordo um excerto de um belíssimo poema de Rosalía de Castro (A Orillas del Sar)

Adivínase el dulce y perfumadocalor primaveral;
los gérmenes se agitan en la tierra
con inquietud en su amoroso afán,
y cruzan por los aires, silenciosos,
átomos que se besan al pasar.
Hierve la sangre juvenil, se exaltalle
no de aliento el corazón, y audaz
el loco pensamiento sueña y cree
que el hombre es, cual los dioses, inmortal,
No importa que los sueños sean mentira,
ya que al cabo es verdad
que es venturoso el que soñando muere,
infeliz el que vive sin soñar.
¡Pero qué aprisa en este mundo triste
todas las cosas van!
¡Que las domina el vértigo creyérase!
La que ayer fue capullo, es rosa ya,
y pronto agostará rosas y plantas
el calor estival.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Nossa Língua Portuguesa

E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada com um todo senhoril, para cantar é suave com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé da sua antiguidade. E se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.
Francisco Rodrigo Lobo (1580-1622), Corte na Aldeia,Diálogo I
Para quando um Museu da Língua Portuguesa, em Portugal?

sábado, 1 de maio de 2010

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...



Eugénio de Andrade

terça-feira, 27 de abril de 2010

Lembrar Mário de Sá-Carneiro

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Mário de Sá-Carneiro (n.1890-m.26 de Abril de 1916)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Planeta dos Livros

Ontem foi o Dia da Terra Mãe, hoje é o Dia do Livro, daqui a dois dias será o Dia dos Dias Todos. Tanta comemoração, tanto para dizer, para escrever, para reflectir. Mas o tempo não ajuda. Tempo do relógio, tempo do ar, tempo da vida.
A Terra Mãe acenou-nos com um vulcão, aquele de nome indizível, que virou a vida do avesso, esta vida que criámos, montados em tecnologia de ponta e pressa de chegar aos destinos, num destino que ainda vamos a tempo de mudar se respondermos com um sorriso de boa vontade aos avisos que esta Terra nos manda.



Dos Livros, partilho convosco a capa de dois. O primeiro é de um tempo que existiu, em que a inocência e a honestidade nas relações humanas era conta corrente na vida das pessoas. Não o partilho com saudosismo, mas antes como uma terna lembrança.


O segundo recorda um tempo que foi vivido pela minha geração e que terminou em 25 de Abril de 1974. A guerra do Ultramar, não sendo assunto tabu, ainda carrega feridas que não sararam totalmente. É o eterno problema da resolução do passado para se caminhar no presente sem medo do futuro.

E agora deixo Fernando Pessoa falar pela boca de um dos seus heterónimos.

Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura,

a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto

— Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Abril de Novo

Andamos atordoados. Eu, pelo menos, ando atordoada. Abro um qualquer jornal, ligo a televisão num qualquer canal e tudo gira à volta do mesmo grupo de palavras-chave, promovidas a chavões ou bordões de amparo das coisas ilógicas, discrepantes, desconexas: suspeitas e mais suspeitas de corrupção, milhões e mais milhões ganhos só "porque se cumprem objectivos", violência e mais violência insana e inútil. Andamos inundados neste mar de enrolos e vamos tocando a nossa vida, a olhar para o lado e a desejar que o insólito não nos caia em cima e vamos para àquele canal que é perito nessas coisas...insólitas.
Tantos sonhos que tivemos há trinta e seis anos. Uns tornaram-se realidade, outros desmaiaram-se nuns sonhos diferentes, outros continuaram sonhos.
Já tenho dado comigo a pensar que isto de lembrar Abril, vai sendo como as comemorações dos finais das duas Grandes Guerras em que os testemunhos vivos ou já não existem ou são muito poucos e por isso já nada se comemora, passou à história. É a Lei da Vida (e da Morte). Mas uma coisa é arrumar um acontecimento, uma lembrança ,lá muito no passado e outra é pegar nessa herança e capitalizá-la para render no presente e garantir o futuro.
Mas Abril já está aí. Não podemos desistir, nem do sonho nem da herança.


Enfim duma escolha faz-se um desafio

enfrenta-se a vida de fio a pavio

navega-se sem mar, sem vela ou navio

bebe-se a coragem até dum copo vazio

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa

e outra maré cheia virá da maré vazia

nasce um novo dia e no braço outra asa

brinda-se aos amores com o vinho da casa

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

domingo, 4 de abril de 2010

PÁSCOA

Um dia de poemas na lembrança
(também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Livros Infantis

Para comemorar este Dia do Livro Infantil, partilho convosco uma versão da história do Capuchinho Vermelho, escrita por um jovem meu amigo, o Miguel Francisco, muito dado às letras e com uma inesgotável imaginação e criatividade.



domingo, 21 de março de 2010

Comemorações...

Nestes dias tão cheios de lembranças e comemorações, escolho duas apenas:

DIA MUNDIAL DA POESIA
Arte Poética
Que o poema tenha carne
Ossos, vísceras, destino,
Que seja pedra e alarme
Ou mãos sujas de destino

Que venha, corpo e amante,
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão

Só assim será poema
Só assim será razão
Só assim te vale a pena
Passá-lo de mão em mão

Que seja rua ou ternura
Tempestade ou manhã clara
Seja arado e aventura
Fábrica terra e seara

Que traga ruas e vinho
Berços, máquinas, luar,
Que faça um barco de pinho
E deite um barco ao mar.

José Jorge Letria
LEMBRANDO ELIS REGINA

segunda-feira, 1 de março de 2010

Futuro com Côr

O mês de Fevereiro partiu.Ponto final.
Foi um mês de choros, de raiva, de gritos, de desespero, do escuro e do sombrio. Levantemos a cabeça e sigamos em frente, de mãos dadas com a solidariedade.
Entra Março e a Primavera. Vem aí a côr.
Quando era miúda aí de uns cinco, seis anos, acontecia-me frequentemente reparar que os números e as letras apareciam coloridos na minha mente. Naquelas horas do dia em que não apetece fazer coisa nenhuma e simplesmente ficava quieta nos vidros da janela da sala a mirar o movimento da rua, os nomes das pessoas que passavam, e que eu conhecia, assim como dos objectos, desfilavam na minha cabeça, coloridos. Cada nome tinha a sua cor ou combinação de duas cores. Na escola, os números ou letras, desenhados no quadro negro a giz branco, como que subitamente tomavam cor: o 1 era preto, o três vermelho, o cinco amarelo, o oito azul, o doze branco azulado, o catorze azul claro, e por aí fora. Só muitos anos depois soube que isto tinha nome e que não era a única pessoa a sentir esta estranheza.
Voltemos à côr. O sorriso abre-se de esperança.
Do grande poeta e amigo Vieira Calado
Poema às Cores
Atenta nesta paleta de cores
estes sinais de opulência da luz breve
símbolos que acordam a manhã dos nossos olhos
para a flor do sol
que insistem na múltipla transfiguração
das imagens que dão forma às nossas vidas;
repara no preto e no branco
como se a sinfonia dos acasos
não fosse mais que a simetria dos ocasos
ou no azul que desfalece
os matizes infindáveis do cinzento
que vai nos olhos, no sangue de cada um
porque é o sol magenta dos alvores matinais
que trai os sonhos da madrugada
a reflexão das cores e do entendimento.
Vê como o verde decai
em tonalidades martirizadas pelo ocre e o amarelo
sustentando a linha melódica dos barros;
Observa a cor do céu na fria latitude
dos gelos glaciares,
na transparência da água dos oceanos
resolvida em anémonas e corais de luz.
Atenta no rosa dos frutos da primavera
entre as folhas a captar o sol
para a maturidade corrompida pelo granizo
onde a imagem da noite baila
no esmorecimento das cores e a sua ausência
o negro
o presente persistindo
curvado à sapiência do eterno.
Atenta nas cores
e ouve o timbre os tons da música
capazes de trazer violetas e rosas
ao patamar da eufori
ao clímax de licores de carmim e rosa
em púrpura desfeita virgindade
na face da menina
já mulher.
Lê a tua sina em esmeraldas
e em rubis cristalizados
proscritos até ao fim do tempo
ou o ébano das noites frias
envenenando o brilho diáfano de ametistas e turquesas
que resolvem a cinza em azul e oiro
e vê como tudo se encaminha para um grande abraço
num arco-íris que vincula a terra à terra
o sangue ao rubro sangue das entranhas dum vulcão
que derrama todas as cores,os símbolos e os signos
o magma que há de florescer nas sensações
a percepção subjectiva do real.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Língua Materna

Um apontamento para comemorar o Dia Internacional da Língua Materna:


A virgindade das palavras


Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.
Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.
O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injectar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.
Se você prende uma água, ela escapará pelas frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele escapará por metáforas. No internato, longe de casa, eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse: - Não presta para nada; há-de ser poeta!


Manoel de Barros


Texto retirado daqui
com o devido crédito
imagem da net

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Outros Sambas...

video

Se o amor é fantasia,

eu me encontro ultimamente em pleno carnaval

Vinicius de Morais

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Coisas de Poesia...

Quase todos os dias a Poesia me vem ao pensamento e à palavra. É um grande Amor. Não sou grande coisa a juntar palavras com sabor a poesia e, apesar de andarem cá por casa uns rabiscos mal amanhados, nunca me atrevi a agredir a sensibilidade alheia com tais arroubos inspirativos. Mas, como dizia, quase todos os dias a encontro.
Hoje, por exemplo, em conversa com a Cristina M. veio à baila a Fernanda de Castro. Difícil escolha,pensei eu, pois as palavras dela têm muita alma, cor e vida e uma pessoa perde-se. Escolhi este:

Urgente

Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a peda, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.
É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.
Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.
Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.

Fernanda de Castro, in Poesia II

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato Faria


Quem me quiser
há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser
há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser
há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser
há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser
há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser
há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

"E a eles darei a minha casa e dentro dos meus muros um memorial e um nome (Yad Vashem) que não será arrancado." (Isaías 56:5).
Este versículo bíblico está na origem do nome dado ao complexo construído em Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.
O Yad Vashem abrange uma vasta área onde estão instalados: o moderno Museu da História do Holocausto, vários memoriais, como o Memorial das Crianças, a Sala da Memória, o Museu de Arte do Holocausto, esculturas, a sinagoga, arquivos, um instituto de pesquisa, biblioteca, uma editora e um centro educacional, a International School for Holocaust Studies (Escola Internacional para o Estudo do Holocausto).
Também existem lugares comemorativos ao ar livre, como o Vale das Comunidades e o Jardim dos Justos Entre as Nações, que presta homenagem a todos os não-judeus que arriscaram a vida, liberdade ou posição para salvar judeus durante o Holocausto. O português Aristides de Sousa Mendes é um dos mais de 22,000 indivíduos que, até 2008, foram reconhecidos como Justos entre as nações.

A Sala dos Nomes, onde se lembram os 6 milhões de Judeus que morreram no Holocausto.

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Israel

Caminhar! caminhar!... O deserto primeiro,
O mar depois... Areia e fogo... Foragida,
A tua raça corre os desastres da vida,
Insultada na pátria e odiada no estrangeiro!


Onde o leite, onde o mel da Terra Prometida?
- A guerra! a ira de Deus! o êxodo! o cativeiro!
E, molhada de pranto, a oscilar de um salgueiro,
A tua harpa, Israel, a tua harpa esquecida!


Sem templo, sem altar, vagas perpetuamente.
E, em torno de Sião, do Líbano ao mar Morto,
Fulge, de monte em monte, o escárnio do Crescente:


E, impassível, Jeová te vê, do céu profundo,
Náufrago amaldiçoado a errar de porto em porto,
Entre as imprecações e os ultrajes do mundo!

Olavo Bilac

Fonte: wikipédia (com hiperligação)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Tragédias

Confrontada com a desgraça dos haitianos, fico um pouco confusa sobre o que posso fazer: assistir aos contínuos directos das televisões para actualizar o ponto da situação, engrossar os inúmeros grupos de solidariedade que foram nascendo por todo o lado embora não tenha descortinado ainda quais os objectivos específicos ou actividades imediatas, deitar a mão à carteira e contribuir com alguns dinheiros para as contas solidariamente abertas ainda que não saiba em nome de quem...
Tenho pena, fico emocionada perante as imagens das crianças à deriva e enfureço-me com as imagens dos salteadores, elevo algumas preces ao Deus em que acredito, mas concluo que nada posso fazer.
Lembro outras desgraças semelhantes e recentes - ainda tenho na memória as imagens das cheias de Moçambique e a moça grávida em cima da árvore- e não encontro tanta "ãnsia", tanto "ruído", tanta "tinta".
É um corropio de gente importante que parece que quer ser vista lá! Imagine-se! Fazer da desgraça cenário quando a maior preocupação deveria ser a organização dos meios para chegar ao maior número de pessoas afectadas. São arrepiantes as solicitações dos médicos e técnicos de saúde e da população sobrevivente. Foi para lá tudo e não têm nada.
A reportagem de uma televisão brasileira descobriu uma mulher viva entre os escombros. Antes da acção imediata que seria retirá-la, foi a equipa de filmagem que trabalhou primeiro, filmando o buraco, a mão e os gemidos. Primeiro a descoberta em directo, ao vivo e a cores e depois o salvamento! Inacreditável!
Num dia destes recebi uma mensagem reenviada, duma organização portuguesa cuja responsável solicitava ajuda para aquela "gente", assim entre aspas. Não percebi, não li até ao fim, não respondi.Ponto.
Não podemos, não devemos transformar a desgraça alheia num circo.

Para me acalmar partilho um poema velhinho

Divina Comédia

Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»

Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ano Internacional da Biodiversidade

Sabias que um estudo publicado em 2004, na revista “Nature”, sobre os possíveis impactos das alterações climáticas em milhares de espécies de mamíferos, aves, anfíbios, répteis, borboletas e outros invertebrados, em 6 zonas ricas em termos de biodiversidade, mostrou que entre 15 e 37% destas poderão extinguir-se até 2050?
É verdade... Para inverter esta tendência, os líderes europeus estabeleceram o objectivo de travar a perda de biodiversidade na Europa e a recuperação dos habitats e sistemas naturais até 2010 – ano que ficará inteiramente marcado pelas comemorações dedicadas ao Ano Internacional da Biodiversidade.
Os Estados Membros da União Europeia ficarão com a responsabilidade de estabelecer uma ambiciosa abordagem política do plano de acção com uma proposta de medidas concretas. Os principais objectivos do plano de acção a nível internacional passam por reforçar a importância de conservar a biodiversidade tanto para o bem-estar da humanidade como para o desenvolvimento da economia, assim como consciencializar o maior número de pessoas possível.
Para o efeito, Portugal está a criar uma Comissão Nacional, que será presidida pelo Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade.
Está previsto ainda um conjunto de políticas a nível nacional, comunitário e europeu. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, as várias políticas incidem em medidas de protecção específicas para espécies e habitats importantes. O Ciência Hoje revela ainda que fonte da Secretaria de Estado do Ambiente tem em mente duas propostas concretas de programação (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos e Centro de Biologia Ambiental) para a criação de uma comissão nacional, restando definir um calendário único.
Prevê-se ainda um ciclo de debates, comemorações e visitas a áreas de maior diversidade. Poderá existir também uma articulação com o país vizinho, já que Portugal partilha uma área de geo-biodiversidade, com Espanha.

O que é a biodiversidade?
A biodiversidade engloba a variedade de genes, espécies e ecossistemas que constituem a vida no planeta. Assiste-se a uma perda constante deste conjunto, com extinções e destruições com profundas consequências para o mundo natural e o bem-estar humano. De certeza que já ouviste falar no lince ibérico, por exemplo, uma espécie em vias de extinção...
As principais causas para o desaparecimento destas espécies são as alterações nos habitats naturais, resultantes dos sistemas intensivos de produção agrícola, da construção, da exploração de pedreiras, da sobrexploração das florestas, oceanos, rios, lagos e solos, da introdução de espécies alóctones invasivas, da poluição e, cada vez mais, das alterações climáticas globais. Vários estudos recentes mostram que se não forem envidados mais esforços políticos significativos, é improvável que esse objectivo seja atingido.
Retirado de ForumEstudante

domingo, 3 de janeiro de 2010

Começo

Começo o Novo Ano com as palavras de que mais gosto. As dos poetas.
Às vezes, os Poetas falam de coisas tristes e cinzentas mas falam muitas mais vezes de Amor e de Esperança. E para este ano, o que mais devemos de desejar é não perder a Esperança.
Como me faltam as palavras belas, partilho estas do Arménio Vieira (Prémio Camões 2009):

UM GATO LÁ NO ALTO

Quando e onde
não me lembro já.
Mas o certo é que a gente falava
da cauda longa dos cometas
e do calor intenso
que habita o núcleo das estrelas.

Meus olhos
estavam fitos no espaço
e de repente
vi um gato
pulando lesto e contente.

Eu juro que vi um gato
saltando de uma nuvem para outra
até ficar oculto
num floco todo branco

Confesso: tive ciúme.
“Deixe esse trapo
e salte cá para baixo”
– ia eu gritar ao gato
mas lembrei-me ainda a tempo
que a distância era muita
e que nenhum bichano entende
a conversa cá da gente.

Ainda que ele ouvisse:
o espírito de um gato
é como o canto de um poeta–
não atende nem escuta
a ordem de ninguém

Engraçado! Um gato lá no alto
entre os braços duma nuvem.
Talvez fosse
um bruxo disfarçado
ou a alma de um vate
vogando no espaço.