Jean-Baptiste-Siméon Chardin
A Jovem Professora (1736)
Visitações, ou o poema que se diz manso
De mansinho ela entrou, a minha filha.
A madrugada entrava como ela, mas não tão de mansinho. Os pés descalços, de ruído menor que o do meu lápis e um riso bem maior que o dos meus versos.
Sentou-se no meu colo, de mansinho.
O poema invadia como ela, mas não tão mansamente, não com esta exigência tão mansinha. Como um ladrão furtivo, a minha filha roubou-me a inspiração, versos quase chegados, quase meus.
E mansamente aqui adormeceu, feliz pelo seu crime.
Ana Luisa Amaral |