quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Poeta João Lúcio

Na passagem dos 90 anos sobre a sua morte, recordo aqui o grande poeta olhanense João Lúcio.

Nascido em Olhão em 4 de Julho de 1880, numa família abastada e culta, onde já outro nome, o pintor Henrique Pousão, brilhava nas artes, evidenciou desde cedo talento para a escrita.
Estudou Direito em Coimbra , privando aí com outros grandes das letras portuguesas como Afonso Lopes Vieira, Augusto de Castro, Teixeira de Pascoaes e Manuel Teixeira Gomes.
Exerceu advocacia em Olhão, salientando-se pelo seu profissionalismo, viva inteligência e palavra fácil. Os seus dotes de magnífico orador granjearam-lhe o respeito e a admiração nos meios políticos, tendo sido deputado da Nação e presidente da Câmara de Olhão.

João Lúcio foi um poeta naturalista, romântico e sonhador.
Ainda em Coimbra publica “Descendo” (1901), cujos versos resultam numa incursão pela luz, perspectivando a descoberta da claridade.
Grande apaixonado pelo Algarve escreve a sua obra poética mais conhecida - "O Meu Algarve" (1905) -, onde hiperboliza a luz, as cores, a terra e o mar do seu Algarve. António José Saraiva e Óscar Lopes em "A História da Literatura" referem-se ao poeta como um António Nobre algarvio, «pelo seu exuberante gosto da cor e mitologia popular»
Publica ainda "Na Asa do Sonho" (1913), uma ode à capacidade humana de sonhar para fugir à realidade, e mais tarde, "Impressões de viagens" e "Vento de Levante". "Espalhando fantasmas" (1921), foi publicado postumamente.

Cerca de 1916 mandou construir no pinhal da sua quinta de Marim, local rico de lendas sobre mouras encantadas , perto de Olhão, um Chalet, com o objectivo de alcançar o isolamento espiritual que tanto necessitava depois da tragédia pessoal da perda do filho.
Esta moradia, pelo seu exotismo, é considerada como um exemplo máximo da arquitectura simbolista em Portugal (existe apenas outro exemplar nacional: a Quinta da Regaleira, em Sintra). É um edifício com três pisos, de forma quadrangular, sem frente nem traseiras, com quatro escadarias de acesso que marcam as entradas para o centro da casa, rematado com uma clarabóia. A escadaria a Norte tem forma de peixe; a Sul, de guitarra; a Nascente, de violino; a Poente, de serpente. Simbolicamente, o peixe representa a água mas, ao contrário do que seria de esperar, está virada para o Norte (continental); a guitarra simboliza o fogo e, também ao contrário do que seria de esperar, está virada para o Sul (líquido); o violino simboliza o ar mas está virada para o fogo do Sol (nascente); a serpente simboliza a terra e a realidade, pelo que está voltada para a urbe de Olhão.


Infelizmente, João Lúcio pouco tempo viveu nesta sua casa, pois foi vítima da gripe pneumónica , em 1918, quando tinha apenas 38 anos.

Olhão tem prestado várias homenagens a esta figura incontornável da sua cultura. O seu busto ornamenta o centro da cidade e a sua casa de Marim foi transformada em Ecoteca.
A paixão da cor
(a Manuel Teixeira Gomes)

Côr, filha da Luz, é uma língua em tons
Que falla, sem rumor, á curva da retina...
Como ha para o ouvido a palavra e os sons,
Nasceu para o olhar esta harmonia fina.

Escorre sobre o campo, empapuçando tudo
N'um brilho rumoroso, ardente de alegrias;
Palpita nos setins, ondula no velludo
E fulge encarcerada em finas pedrarias.

Em toda a parte põe a aza transparente:
No mar, nos vegetaes, nos montes, nos pallores...
No nosso sangue a Côr murmura intensamente,
Sugam-n'a p'los jardins as sequiosas flores.

Faz o scenario rubro e amplo da alvorada,
Espalha pelo Ar um pó alado e loiro,
Torna a agua do mar suave e azulada
E talha, no poente, architecturas de oiro.

Sonoramente vibra, em rubro, sobre os cactos:
Tem um ar de saudade, em roxo, nas violetas:
É meiga no azul dos lagos e regatos,
As azas de setim salpica ás borboletas.

Ululou no pincel extranho de Rembrant,
O trágico da tinta, Eschylo da pintura;
Foi triste e dolorosa em Cano e Zurbaran
E em Rubens tomou idylica frescura.

Com Velasques creou rajadas de epopea
E em Raphael foi d'uma doce grandeza;
Miguel Angelo pôz a Côr d'assombros cheia
Por forma que excedeu até a Natureza.

Murillo fel-a erguer, celeste e amoravel,
Ao lyrismo ideal da mystica doçura,
Mergulhava o pincel fino e admirável
Dentro do coração, p'ra embebel-o em ternura.

Oh Côr, que vaes correr pelas veias das flores,
Voluptuosa côr que adora o algarvio,
Que fostes muita vez, em ardentes amores,
O collo desnudar nos braços de meu tio.

E porquê? Que razão nos acorrentará
Ao teu manto brilhante, ao teu manto fulgente?!
A volúpia, talvez, que dentro de ti ha,
Minha linda pagã, sensual e ardente!
Do Livro O Meu Algarve
(foi mantida a escrita original e foram feitas supressões)

10 comentários:

Sophiamar disse...

Um poeta algarvio, homem ilustre na região, de que muito gosto apesar de ter deixado uma obra pequena.Tão curta lhe foi a vida.

Beijinhos

Tiago R Cardoso disse...

Realmente um excelente momento, adorei a lembrança e a divulgação.

o escriba disse...

Isabel

Querida Amiga, João Lúcio ainda é considerado o mais ilustre advogado que o Algarve teve!
A poesia dele, própria de uma determinada época das letras, é o maior elogio ao nosso Algarve.

bjinhos
Esperança

o escriba disse...

Tiago R Cardoso

É sempre bom recordar quem tão bem tratou a poesia. João Lúcio o Algarve e o Amor de maneira inesquecível.

Um abraço
Esperança

(Tiago, há alguma maneira de eu o contactar por email?)

O Guardião disse...

Há algum tempo li num espaço amigo um artigo sobre João Lúcio e também lá estava o Chalet que me ficou na memória para um dia o visitar.
Boa divulgação.
Cumps

lagartinha disse...

Que boas recordações...não a nível de literatura, mas de arquitectura. Já conhecia este nome de uma aula fabulosa de História de Arte com o Prof.Quadros. Segundo algumas interpretações, a fachada Norte significaria a expansão do conhecimento além fronteiras, a descoberta de outras ideologias sociológicas sem a interferência da comunidade piscatória, que segundo João Lúcio, seria igual em qualquer parte do mundo, desde que houvesse...mar.
bjs

o escriba disse...

O Guardião

Merece a pena ser visto. É um edifício lindíssimo e lá do alto da clarabóia tem-se uma bela perspectiva da Ria Formosa. Agora funciona lá a Ecoteca que, infelizmente, fecha aos fins de semana, o que retira a hipótese das visitas nesses dias.

Um abraço
Esperança

o escriba disse...

Ana Lagartinha

Que bom que já conhece este belo edifício, verdadeiro ex-libris de Olhão.

Espero que aí por casa já esteja tudo bem!

bjinhos
Esperança

lagartinha disse...

Vim largar um beijinho e desejar um bom dia das bruxas. Já estão todos mais ou menos finos cá em casa. Obrigada
Bjs

o escriba disse...

Ana Lagartinha

Esta lagartinha verdinha tem trajes para todas as ocasiões. Espalha alegria!
Ainda bem que já está tudo recomposto!

Bom fim de semana
bjinhos
Esperança