segunda-feira, 14 de abril de 2014

A Páscoa e os Folares

Seja qual for a sua zona de origem, com mais doce ou menos doce, com ovo ou sem ele, liso ou de folhas, também o folar tem uma lenda associada.
Folar de Olhão



Reza a lenda que, numa aldeia portuguesa, habitava uma rapariga chamada Mariana, cujo único desejo e objectivo na vida era casar cedo. Mariana rezava todos os dias a Santa Catarina e de tanto rezar, o seu desejo acabou por se realizar. Um certo dia, surgiram-lhe dois pretendentes: um fidalgo rico e um lavrador pobre, ambos jovens e muito bonitos. Perante uma grande indecisão, Mariana voltou a rezar a Santa Catarina, pedindo-lhe ajuda para tomar a decisão acertada. Enquanto estava concentrada na sua oração, o lavrador pobre, chamado Amaro, bateu-lhe à porta e pediu-lhe uma resposta, marcando como data limite o Domingo de Ramos. Nesse mesmo dia, umas horas depois, apareceu o fidalgo e pediu-lhe também uma resposta. Mariana ficou sem saber o que fazer!
Chegado o Domingo de Ramos, uma vizinha, muito aflita, foi a casa da Mariana avisá-la de que tinha visto o fidalgo e o lavrador numa luta de morte, no meio da rua. Mariana correu até ao lugar onde os dois se defrontavam e, ao pedir ajuda a Santa Catarina, Mariana soltou o nome de Amaro, o lavrador pobre.
Na véspera de Domingo de Páscoa, Mariana andava atormentada, pois tinha ouvido dizer que o fidalgo ia aparecer no dia do seu casamento para matar Amaro. Mariana voltou a pedir ajuda a Santa Catarina e a imagem da Santa apareceu-lhe, a sorrir.
No dia seguinte, Mariana foi pôr flores no altar de Santa Catarina e, ao chegar a casa, viu um grande bolo com ovos inteiros, rodeado das flores que Mariana tinha posto no altar, em cima da mesa. Correu até casa de Amaro e para seu espanto, também este tinha recebido um bolo semelhante. Pensando ter sido ideia do fidalgo, resolveram ir agradecer-lhe. Mas também este tinha recebido o mesmo bolo. Mariana teve a certeza de que tudo aquilo tinha sido obra de Santa Catarina.
Inicialmente chamado de folore, o bolo passou a ser conhecido como folar e tornou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação. É por isso que, nos dias de hoje, os afilhados levam um ramo de flores às madrinhas de baptismo e estas, no Domingo de Páscoa, oferecem-lhes, em retribuição, um folar.

(Através da amiga Isabel Caiado Vedes, de Faro)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia da Poesia II

Soneto imperfeito da caminhada perfeita

Já não há mordaças,nem ameaças,nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos...Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças,nem ameaças,nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha

Dia da Poesia

Vidro Côncavo
António Gedeão


Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Saber a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.

Doi esta corda vibrante
A corda que o barco prende
à fria argola do cais
Se uma onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais.


Solidão
Mia Couto

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo


Motivo
Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

domingo, 22 de setembro de 2013

Lido por aí...(2)


Já te disse que estou pronta em 5 minutos. Pára de me chatear de meia em meia hora.


Quem disse que o mundo é dos que acordam cedo? O mundo é de quem acorda feliz!


Tenho tantas coisas para fazer que para não ser injusta com nenhuma delas... não vou fazer nada!



sábado, 21 de setembro de 2013

Lido por aí

Algumas coisas na vida não têm preço, 
mas muitas têm troco.



Assim é a vida.  Um recomeçar contínuo, mesmo quando tudo está perdido.
 
 A partir de agora é proibido:
Levantar da cama sem Sonhos,
Vestir-se sem Esperança,
Caminhar sem Fé, 
E viver sem Amor.
 
Vire a página. Dê um ponto final nas coisas que te fazem mal. A vida é um círculo, não um quadrado. Tenha pressa de ser feliz, porque nós não sabemos quanto tempo nos resta.
(Retiradas do Facebook)

Frases soltas

Sentenças, aforismos, citações, frases lapidares e afins há aos montes nas redes sociais, mormente no facebook. Repetem-se milhares de vezes, com roupagens novas, com desenhos, sem desenhos, com fundos idílicos ou sem eles. Em alguns reconhecemos traduções, muitas vezes mal feitas. Em outros, os atropelos à língua portuguesa fazem tremer qualquer desacordo ortográfico. Com uns rimos até às lágrimas, com outros nos comovemos. Uns passam a correr, outros encalham na nossa consciência. Há para todos os gostos e tamanhos. Vou começar a trazê-los para aqui.


sábado, 22 de junho de 2013

Falado à Moda Antiga

Em Olhão fala-se de um modo ligeiramente diferente, mas a base, digamos, é idêntica.
Este texto trouxe-o daqui, do blog de Eurico Duarte. Merece a pena ler os outros textos.

Este na bateu do cu do burro

Oije, vou-ma contar uma parte ca famila más intiga usa a contar e que ê cude que se passou faz ele já munte tempo...

Há muntes anes, havia num monte um moçqueno munte rabalão. Certe dia, a mãe dê-le ordem de ir à vila, mode ir vinder uns cestinhos d'imprêta. O moçqueno levou o burro cos cestos e más uns figuinhos, mode im le dando griza ter quajquer cousita pa morfar plo caminho.

Abalou o moço más o burro, inda o sol mal xpontava, e foi pla chapada do cerro abaxo. Im chegado à varja, ia ele cantarolando uma modinha e alembra-se dos figuinhos que trazia nas aljebêras. Uns era más grados que outros, uns sariam más sadios e outros tariam murrinhosos. Ora, o moço, como inda na levava munta griza e era bicoso com o quemer, pranta-se a ravinhar dos figos. Tirou um ou otro que le agradou más e os outros ia jogando neles fora e dezia «este bateu do cu do burro, na presta!». Vai daí, más de metade dos figos dixou-os ele plo caminho, mode terem batido "do cu do burro"...
Passou-se o dia, o moçqueno lá na vila a fazer venda dos cestos... e condo se fez sol-pestinho vêo de volta po monte. Ma mostra co messinho na tinha quemido nada o dia intêro e vinha cuma griza que já nã aguintava más. Vai daí, quemeça ele a ver os figuinhos qu'ele tinha jgado fora plo caminho. Ó... Vá-se fazendo a boquinha im água e, às tantas, salta o moço do burro e pranta-se a panhar os figos do chão. Assoprava neles e dezia «Este na bateu do cu do burro» e morfava-os cum um gosto, c'até le sabia a xirém! Inté dixou o burro da mão, mode andar à pergunta dos figos, tal na era a griza que levava...

E assim foi. Inda oije, condo a famila dá parte de alguém ser bicoso, ma adespôs, im le dando a griza, já come de tudo sim ravinhar, usa-se a dezer «olha, esse na bateu do cu do burro!».

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Ó Meu Rico S. João!

Fernando Pessoa dizia que as quadras populares são o vaso de flores que o Povo põe à janela da alma.

Há mais de 75 anos que o Jornal de Notícias promove o concurso de quadras populares, no âmbito das festas do S. João. Aqui vão algumas:

No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não
Tal como nos outros dias

Aqui tens meu coração
Decide da sua sorte
Mas olha que S. João
É contra a pena de morte (1931)

Quando as saias arregaça
Para bailar livremente
Maria, cheia de graça
Faz a desgraça da gente (1931)

Teus lindos olhos cravaste
Nas fogueiras, com ciúme
E de novo incendiaste
As próprias cinzas do lume (1933)

Da imensa cascata erguida
Sobre este monte bizarro
Apenas somos, na vida,
Pobres bonecos de barro (1944)

Trocaste um passo na roda
E desse passo mal dado
Houve arroz doce na boda
Que sabia a baptizado (1947)

Ficar sem festa e sozinha
É tudo quanto me resta
Porque os foguetes que tinha
Deitei-os antes da festa (1953)

Povo! Na tua fé louca
Cantavas pra não chorar!...
Hoje sem cravos na boca
Choras de poder cantar (1974)

Com certas moças não brinco
Em noite de S. João
São como porta sem trinco
Que faz de um homem ladrão (1980)

Tenho o salário em atraso
Mas vou pra rusga contente
Hoje o meu contrato a prazo
É de amor a toda a gente (1986)

Acabada a reinação
Vim da festa acompanhado.
Quis passar por gavião,
Acabei pombo anilhado. (1995)


Não te iludas meu amor
Co'a cascata do vizinho;
Tem balões e muita cor...
Mas não tem nenhum santinho! (2012)

 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ai a Língua!

No meio das incongruências políticas com que somos premiados todos os dias, vão também saltando aqui e ali outras incongruências. Gramaticais e semânticas, a bem dizer. Não é que eu entenda muito da natureza destes palavrões, mas do que eu vou aqui falar não há enquadramento económico, desportivo, cultural ou recreativo, pelo que se encaixa aí na perfeição.
Vamos lá: num dia da semana que passou, o Presidente da República, não sei se no ardor do discurso inflamado sobre a austeridade , se no estertor da defesa da mesma, e entalado na péssima dicção que vem ultimamente desenvolvendo, saiu-lhe um "cidadões" para aqui, um "cidadões" para acolá. Como nesse momento da reportagem televisiva estava com umas coisas entre mãos (rás parta a cebola!), o meu cérebro não reagiu de imediato. Fcou, no entanto, uma nódoazita à tona dos líquidos, que foi espalhando e incomodando. À noite, parou tudo, parei tudo. Tinha de ouvir a peça. E lá estava o "ões" da indignidade gramatical. Ó senhor Presidente, que lhe falte letras na sua oralidade, que confunda os "r" com os "g" vá que não vá, pois que não sendo locutor de rádio, a mais não será obrigado. Mas CIDADÕES? CIDADÕES? Santa paciência! Eu que passo um terço do meu dia a martelar na cabeça dos moços (salvo seja!) o singular e  o plural, que risco com quase fúria as desafinações do género e número, ainda tenho de levar com um presidente que maltrata a Língua? Por favor, despalite o bolo-rei dos dentes, recomponha-se, olhe para a sua mestra Maria e fale como deve ser! 
A outra incongruência deu-se ontem. Via Tweeter. Via deputado. Carlos Abreu Amorim, também no ardor do discurso clubístico, ou no estertor do reinado político, desabafou em mensagem eletrónica que quem não é do clube do Porto é Magrebino! Redutor, o futebol: se não és deste mundo azul dos quatro costados, então só podes pertencer à turba acéfala dos rafeiros sem casa nem dono, que ocupam a outra parte do mundo que é magrebino! Dois insultos numa só frase. É obra. E é este ser surreal um DEPUTADO. Claro que ele pode ter a vida que quiser, o clube que quiser,  que tem direito a ter vida para além de deputado. Mas não se pode esquecer de que é uma figura pública e que não pode dizer bacoradas da boca para fora. Ninguém lhe dá o direito de usar nomes com segundos sentidos! Quem são os Magrebinos? Os habitantes do Magreb. Tão só. São pessoas como todas as outras. Usar o seu nome com sentido pejorativo, para desvalorizar outros, para acentuar divisões Norte e Sul, isso é baixo e ridículo. Componha-se, homem de Deus! Fale como deve ser que o seu ordenado de deputado é pago pelos contribuintes deste país, com as mesmas origens que as suas!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Primeira Viagem ao Espaço

No dia 12 de abril de 1961, o cosmonauta  Iuri Alexeyevich Gagarin tornou realidade o grande sonho do Homem - viajar e entrar no espaço. 

Carlos Drumond de Andrade viu assim o desejo da aventura espacial:

O HOMEM; AS VIAGENS

O homem,bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na terra
lugar de muita miséria e pouca diversão
faz um foguete,uma cápsula,um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada tão igual à Terra
O homem chateia-se na Lua
Vamos para Marte-ordena a suas máquinas
Elas obedecem,o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado,que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro-diz o engennho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto- é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repertório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol,falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.

Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo
por o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene,insuspeitada alegria
de con-viver.