quarta-feira, 29 de setembro de 2010

E Agora?

Podia escrever aqui bastas letras de descontentamento. Podia, mas... não era a mesma coisa. Andamos de decepção em decepção. Uns parece que conseguem ver a luz ao fundo do túnel, mas outros nem o túnel enxergam, apesar dos encontrões e empurrões.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Acreditar, com Serenidade

Para tudo há um tempo


Debaixo do céu há momento para tudo
E tempo certo para cada coisa:


Há um tempo de nascer e tempo de morrer;


tempo de plantar e tempo de arrancar;


tempo de matar e tempo de curar;


tempo de derrubar e tempo de construir.


Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar;


tempo de chorar e tempo de dançar;


tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las;


tempo de abraçar e tempo de afastar.


Há tempo de procurar e tempo de perder;


tempo de economizar e tempo de desperdiçar;


tempo de rasgar e tempo de remendar;


tempo de ficar calado e tempo de falar.




Há tempo de amar e tempo de odiar;


tempo de guerra e tempo de paz.

Eclesiastes 3:1-8

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Céu de Estrelas

Neste princípio de semana foram lembradas duas datas: o 33º aniversário da morte de Elvis Presley e o 50º aniversário do primeiro concerto dos Beatles.
Estrelas no céu da fama que marcaram gerações e fizeram história.





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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Laços

Jean-Baptiste-Siméon Chardin
A Jovem Professora (1736)


Visitações, ou o poema que se diz manso

De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.


Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luisa Amaral

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ria Formosa

Ria Formosa

Nasci na ria formosa

Sou filha deste sapal
neta da moura de Bias
Sou de Floripes rival
nesta ria fui nascida num dia de claridade
na luz do sol ao meio dia
Em Agosto sou a acalmia
Sou o vento beduíno
o velho o moço o menino
que há em cada pescador Sou o desgosto e a dor
Vela ao senhor dos aflitos
Sou mãe de todos os gritos Padroeira do pavor
que assalta quem é perdido
e de quem teme perder o irmão o pai o marido
Sou a santa no andor em dia de procissão
Sou a rameira de Olhão -
Apelido que a inveja
das puritanas me deu-
Pois da braveza do mar
da escalmorrice da vida me veio a pele sertaneja
e o sangue a ferver no corpo que todo o homem deseja
Sou filha da luz da lua
gerada na noite escura numa cópula sem rosto
Sou filha dos homens todos
e de todas as mulheres Irmã de todas as vagas
Sou amiga das diabas
Sou amante dos diabos e dos ventos desgarrados
atiçados a sueste
que se lançam contra a duna
Sou vulgar e importuna Rainha dos meus humores
no castelo aonde abrigo os corpos dos pescadores
que a maré por devaneio resolve levar consigo
Olho o esteio de cada barco que entra e sai aquela barra
por onde eu saía à garra para depois na enchente
ser levada na corrente
e aos beijos e abraços entrar de novo à deriva
neste berço
nesta ria
que me viu nascer poeta para em meus versos ou prosa
cantar até rebentar este braçado de mar
a que chamaram Formosa.

Julieta Lima, in http://hienas.blogs.sapo.pt/
foto minha

domingo, 1 de agosto de 2010

Agosto


Poesia de Agosto

Foi em Agosto que descobri
O sabor das ondas nos teus olhos
O teu corpo úmido de maresia
Espraiando no perfil moreno do sol
Todo o êxtase viril que de ti vinha
Foi em Agosto que descobri em ti
O azul matizado do céu
O colorido do poente brincando em mim
Todo o sonho dos peixes
Fechados nas nossas mãos
Sonho porque te quero sonhar
E deixa-me dizer-te
Porque senão eu choro
Eu sou o espaço...
Uma dádiva...
Vem porque é Agosto
E quero cantar-te...


Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
imagem da net

sábado, 31 de julho de 2010

Celebrar a Vida




Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraiso?
...Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?



Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
E só de mim que ando delirante
-Manhã tão forte que me anoiteceu.

imagem: NOITES DE ANTO, De Mário Caudio, Casa da Comédia - 1988
poema: Mário Sá-Carneiro
António Feio (1954-2010)


sábado, 24 de julho de 2010

No tempo das cerejas...

Ela dizia que tinha nascido no mês das cerejas, por não saber exactamente quando. Mas o que ela sabia bem era cantar. Amália cantou, muito e bem. Um dia deitou-se a escrever versos. Palavras e rimas, onde o amor soava a dor e a sorte encontrava-se na morte.




Horas de Vida Perdida



Horas de vida perdida
à procura de viver
Vai-se à procura da vida
Não a encontra quem quer


Quem sou eu para dizer
Quem sou eu para o saber
Nem sei se sou ou não sou
Ninguém pode conhecer
Isso de ser ou não ser


Sem saber sei entender
Assim sei o que não sei
Sinto que sou e não sou
Entre o que sei e não sei
A minha vida gastei
Sem conseguir entender


Ai quem me dera encontrar
As rimas da poesia
Ai se eu soubesse rimar
Tantas coisas que eu dizia
Amália Rodrigues, Versos






domingo, 4 de julho de 2010

Poesia

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quarta-feira, 23 de junho de 2010

São João

Ó meu rico São João,

Vira a cara para o lado,

Já me queimei na fogueira,

Não cumpri o combinado.

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Jurei saltar a fogueira

E meus pecados limpar.

São João, já fiz asneira,

E, assim, não posso casar.

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São coisas de antigamente,

E já ninguém quer saber!

Mas São João será sempre,

para bailar e beber.

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Duo Ouro Negro, Maria Rita

Quadras minhas