segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Língua Materna

Um apontamento para comemorar o Dia Internacional da Língua Materna:


A virgindade das palavras


Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.
Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.
O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injectar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.
Se você prende uma água, ela escapará pelas frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele escapará por metáforas. No internato, longe de casa, eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse: - Não presta para nada; há-de ser poeta!


Manoel de Barros


Texto retirado daqui
com o devido crédito
imagem da net

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Outros Sambas...

Se o amor é fantasia,

eu me encontro ultimamente em pleno carnaval

Vinicius de Morais

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Coisas de Poesia...

Quase todos os dias a Poesia me vem ao pensamento e à palavra. É um grande Amor. Não sou grande coisa a juntar palavras com sabor a poesia e, apesar de andarem cá por casa uns rabiscos mal amanhados, nunca me atrevi a agredir a sensibilidade alheia com tais arroubos inspirativos. Mas, como dizia, quase todos os dias a encontro.
Hoje, por exemplo, em conversa com a Cristina M. veio à baila a Fernanda de Castro. Difícil escolha,pensei eu, pois as palavras dela têm muita alma, cor e vida e uma pessoa perde-se. Escolhi este:

Urgente

Urgente é construir serenamente
seja o que for, choupana ou catedral,
é trabalhar a peda, o barro, a cal,
é regressar às fontes, à nascente.
É não deixar perder-se uma semente,
é arrancar as urtigas do quintal,
é fazer duma rosa o roseiral,
sem perder tempo. Agora. Já. É urgente.
Urgente é respeitar o Amigo, o Irmão,
é perdoar, se alguém pede perdão,
é repartir o trigo do celeiro.
Urgente é respirar com alegria,
ouvir cantar a rola, a cotovia,
e plantar no pinhal mais um pinheiro.

Fernanda de Castro, in Poesia II

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato Faria


Quem me quiser
há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser
há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser
há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser
há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser
há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser
há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

"E a eles darei a minha casa e dentro dos meus muros um memorial e um nome (Yad Vashem) que não será arrancado." (Isaías 56:5).
Este versículo bíblico está na origem do nome dado ao complexo construído em Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.
O Yad Vashem abrange uma vasta área onde estão instalados: o moderno Museu da História do Holocausto, vários memoriais, como o Memorial das Crianças, a Sala da Memória, o Museu de Arte do Holocausto, esculturas, a sinagoga, arquivos, um instituto de pesquisa, biblioteca, uma editora e um centro educacional, a International School for Holocaust Studies (Escola Internacional para o Estudo do Holocausto).
Também existem lugares comemorativos ao ar livre, como o Vale das Comunidades e o Jardim dos Justos Entre as Nações, que presta homenagem a todos os não-judeus que arriscaram a vida, liberdade ou posição para salvar judeus durante o Holocausto. O português Aristides de Sousa Mendes é um dos mais de 22,000 indivíduos que, até 2008, foram reconhecidos como Justos entre as nações.

A Sala dos Nomes, onde se lembram os 6 milhões de Judeus que morreram no Holocausto.

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Israel

Caminhar! caminhar!... O deserto primeiro,
O mar depois... Areia e fogo... Foragida,
A tua raça corre os desastres da vida,
Insultada na pátria e odiada no estrangeiro!


Onde o leite, onde o mel da Terra Prometida?
- A guerra! a ira de Deus! o êxodo! o cativeiro!
E, molhada de pranto, a oscilar de um salgueiro,
A tua harpa, Israel, a tua harpa esquecida!


Sem templo, sem altar, vagas perpetuamente.
E, em torno de Sião, do Líbano ao mar Morto,
Fulge, de monte em monte, o escárnio do Crescente:


E, impassível, Jeová te vê, do céu profundo,
Náufrago amaldiçoado a errar de porto em porto,
Entre as imprecações e os ultrajes do mundo!

Olavo Bilac

Fonte: wikipédia (com hiperligação)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Tragédias

Confrontada com a desgraça dos haitianos, fico um pouco confusa sobre o que posso fazer: assistir aos contínuos directos das televisões para actualizar o ponto da situação, engrossar os inúmeros grupos de solidariedade que foram nascendo por todo o lado embora não tenha descortinado ainda quais os objectivos específicos ou actividades imediatas, deitar a mão à carteira e contribuir com alguns dinheiros para as contas solidariamente abertas ainda que não saiba em nome de quem...
Tenho pena, fico emocionada perante as imagens das crianças à deriva e enfureço-me com as imagens dos salteadores, elevo algumas preces ao Deus em que acredito, mas concluo que nada posso fazer.
Lembro outras desgraças semelhantes e recentes - ainda tenho na memória as imagens das cheias de Moçambique e a moça grávida em cima da árvore- e não encontro tanta "ãnsia", tanto "ruído", tanta "tinta".
É um corropio de gente importante que parece que quer ser vista lá! Imagine-se! Fazer da desgraça cenário quando a maior preocupação deveria ser a organização dos meios para chegar ao maior número de pessoas afectadas. São arrepiantes as solicitações dos médicos e técnicos de saúde e da população sobrevivente. Foi para lá tudo e não têm nada.
A reportagem de uma televisão brasileira descobriu uma mulher viva entre os escombros. Antes da acção imediata que seria retirá-la, foi a equipa de filmagem que trabalhou primeiro, filmando o buraco, a mão e os gemidos. Primeiro a descoberta em directo, ao vivo e a cores e depois o salvamento! Inacreditável!
Num dia destes recebi uma mensagem reenviada, duma organização portuguesa cuja responsável solicitava ajuda para aquela "gente", assim entre aspas. Não percebi, não li até ao fim, não respondi.Ponto.
Não podemos, não devemos transformar a desgraça alheia num circo.

Para me acalmar partilho um poema velhinho

Divina Comédia

Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»

Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ano Internacional da Biodiversidade

Sabias que um estudo publicado em 2004, na revista “Nature”, sobre os possíveis impactos das alterações climáticas em milhares de espécies de mamíferos, aves, anfíbios, répteis, borboletas e outros invertebrados, em 6 zonas ricas em termos de biodiversidade, mostrou que entre 15 e 37% destas poderão extinguir-se até 2050?
É verdade... Para inverter esta tendência, os líderes europeus estabeleceram o objectivo de travar a perda de biodiversidade na Europa e a recuperação dos habitats e sistemas naturais até 2010 – ano que ficará inteiramente marcado pelas comemorações dedicadas ao Ano Internacional da Biodiversidade.
Os Estados Membros da União Europeia ficarão com a responsabilidade de estabelecer uma ambiciosa abordagem política do plano de acção com uma proposta de medidas concretas. Os principais objectivos do plano de acção a nível internacional passam por reforçar a importância de conservar a biodiversidade tanto para o bem-estar da humanidade como para o desenvolvimento da economia, assim como consciencializar o maior número de pessoas possível.
Para o efeito, Portugal está a criar uma Comissão Nacional, que será presidida pelo Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade.
Está previsto ainda um conjunto de políticas a nível nacional, comunitário e europeu. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, as várias políticas incidem em medidas de protecção específicas para espécies e habitats importantes. O Ciência Hoje revela ainda que fonte da Secretaria de Estado do Ambiente tem em mente duas propostas concretas de programação (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos e Centro de Biologia Ambiental) para a criação de uma comissão nacional, restando definir um calendário único.
Prevê-se ainda um ciclo de debates, comemorações e visitas a áreas de maior diversidade. Poderá existir também uma articulação com o país vizinho, já que Portugal partilha uma área de geo-biodiversidade, com Espanha.

O que é a biodiversidade?
A biodiversidade engloba a variedade de genes, espécies e ecossistemas que constituem a vida no planeta. Assiste-se a uma perda constante deste conjunto, com extinções e destruições com profundas consequências para o mundo natural e o bem-estar humano. De certeza que já ouviste falar no lince ibérico, por exemplo, uma espécie em vias de extinção...
As principais causas para o desaparecimento destas espécies são as alterações nos habitats naturais, resultantes dos sistemas intensivos de produção agrícola, da construção, da exploração de pedreiras, da sobrexploração das florestas, oceanos, rios, lagos e solos, da introdução de espécies alóctones invasivas, da poluição e, cada vez mais, das alterações climáticas globais. Vários estudos recentes mostram que se não forem envidados mais esforços políticos significativos, é improvável que esse objectivo seja atingido.
Retirado de ForumEstudante

domingo, 3 de janeiro de 2010

Começo

Começo o Novo Ano com as palavras de que mais gosto. As dos poetas.
Às vezes, os Poetas falam de coisas tristes e cinzentas mas falam muitas mais vezes de Amor e de Esperança. E para este ano, o que mais devemos de desejar é não perder a Esperança.
Como me faltam as palavras belas, partilho estas do Arménio Vieira (Prémio Camões 2009):

UM GATO LÁ NO ALTO

Quando e onde
não me lembro já.
Mas o certo é que a gente falava
da cauda longa dos cometas
e do calor intenso
que habita o núcleo das estrelas.

Meus olhos
estavam fitos no espaço
e de repente
vi um gato
pulando lesto e contente.

Eu juro que vi um gato
saltando de uma nuvem para outra
até ficar oculto
num floco todo branco

Confesso: tive ciúme.
“Deixe esse trapo
e salte cá para baixo”
– ia eu gritar ao gato
mas lembrei-me ainda a tempo
que a distância era muita
e que nenhum bichano entende
a conversa cá da gente.

Ainda que ele ouvisse:
o espírito de um gato
é como o canto de um poeta–
não atende nem escuta
a ordem de ninguém

Engraçado! Um gato lá no alto
entre os braços duma nuvem.
Talvez fosse
um bruxo disfarçado
ou a alma de um vate
vogando no espaço.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Boas Festas

A todos os Amigos e Visitantes desejo


FELIZ
NATAL
e


BOM ANO 2010
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Agradeço, também, a simpatia dos vossos comentários aos quais, por razões várias não tenho podido responder. Espero que o novo ano me traga mais tempo para cuidar deste espaço!


Aqui vos deixo a minha prenda natalícia: Machado Soares e um Poema de Fernando Pessoa.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Para começar Dezembro

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.


Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão