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domingo, 15 de julho de 2012

Resta a esperança

 Já há alguns dias , largos dias, que andamos com uma espécie de terror branco nas nossas cabeças: temos lugar, não temos? Como vai ser? E as respostas foram dadas no final da semana - umas de forma frontal, em direto, outras de forma mais miserável, em forma de recados indiretos. Quantos de nós estão a sofrer na pele a dispensa de trabalho. Quantos de nós virão a estar no próximo ano. Não abre telejornais, mas devia abrir, ocupados que estão em esmiuçar buscas de conhecimento permanente, fraudulentamente certificadas mas, ao que parece, plenas de legalidade. 
Para muitos de nós, a dedicação, o empenho e o profissionalismo diluiram-se na incerteza de um amanhã. A esperança é tudo o que resta.

Poema de agradecimento à corja    

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.


Joaquim Pessoa

domingo, 8 de março de 2009

João de Deus


João de Deus de Nogueira Ramos, mais conhecido por João de Deus, nasceu em São Bartolomeu de Messines, a 8 de Março de 1830, e faleceu em Lisboa, a 11 de Janeiro de 1896. Advogado e jornalista, foi também um eminente poeta, de lirismo simples e terno, com grande profundidade emocional e muitas vezes melancólico. As suas poesias foram reunidas na colectânea Campo de Flores, publicada em 1893, incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Publicou ainda um Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil (1870), e as obras poéticas Ramo de Flores (1869) e Despedidas de Verão (1880). No entanto, foi na área da Educação que João de Deus deixou a sua marca indelével e se distinguiu como pedagogo ao propor, em 1876, um método de ensino da leitura. Assente numa Cartilha Maternal por ele escrita e inspirada em experiências de pedagogos inovadores como Pestalozzi, o método teve grande aceitação popular, o que levou a ser aprovado, em 1878, como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa.

Em Maio de 1882, foi fundada a Associação de Escolas Móveis, que tinha como finalidade o ensino particular da leitura e da escrita pelo método de João de Deus. Essa entidade originou, em 1908, a Associação de Jardins-Escolas João de Deus, uma Instituição Particular de Solidariedade Social dedicada à educação e à cultura. No seu âmbito funciona o Museu João de Deus e a Escola Superior de Educação João de Deus e múltiplos jardins-escolas.

João de Deus foi considerado o poeta do amor.
O país prestou-lhe as devidas homenagens mesmo ainda em vida e , aquando da sua morte, foi sepultado no Panteão Nacional.
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ADORAÇÃO
Vi o teu rosto lindo,
esse rosto sem par;
contemplei-o de longe, mudo e quedo,
como quem volta de áspero degredo
e vê ao ar subindo
o fumo do seu lar!
Vi esse olhar tocante,
de um fluido sem igual;
suave como lâmpada sagrada,
bem-vindo como a luz da madrugada
que rompe ao navegante
depois do temporal!
Vi esse corpo de ave,
que parece que vai
levado como o Sol ou como a Lua,
sem encontrar beleza igual à sua,
majestoso e suave,
que surpreende e atrai!
Atrai, e não me atrevo
a contemplá-lo bem;
porque espalha o teu rosto uma luz santa,
uma luz que me prende e que me encanta
naquele santo enlevo
de um filho em sua mãe!
Tremo, apenas pressinto
a tua aparição;
e, se me aproximasse mais, bastava
pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
é uma adoração!
Que as asas providentes
do anjo tutelar
te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
de ver que me consentes
olhar de longe... olhar!
Fontes: Texto, wikipédia; Imagens, BNdigital