segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Língua Materna

Um apontamento para comemorar o Dia Internacional da Língua Materna:


A virgindade das palavras


Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.
Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.
O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injectar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.
Se você prende uma água, ela escapará pelas frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele escapará por metáforas. No internato, longe de casa, eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse: - Não presta para nada; há-de ser poeta!


Manoel de Barros


Texto retirado daqui
com o devido crédito
imagem da net

7 comentários:

Zé Povinho disse...

A língua é o cimento que nos une e que é maior do que o espaço físico que ocupamos.
Abraço do Zé

o escriba disse...



Apreciei muito o seu comentário pela metáfora utilizada. Obrigada!

Um abraço
Esperança

lagartinha disse...

Difícil, difícil é explicar a um miúdo de 16 anos que pode explicar uma ideia numa frase com pelo menos 2 verbos, 3 ou 4 substantivos e ainda fazer um brilharete com uns quantos adjectivos...
Por acaso eu adoro o estudo da língua Portuguesa, mas e os colegas do meu filho? O vocabulário vai ficando mais escasso...asso...asso...so...
Daqui a 2 anos, o meu filho vai ter de "vender" o seu peixe...ou seja, vai ter de expor a sua ideia oralmente e fazer com que acreditem que qualquer coisa vai gerar dinheiro...
Actualmente, nas escolas, deviam gastar mais tempo a aprender a "FALAR BEM".
Sou mãe de 3 filhos e acho que a Português só deviam passar de ano quando não dessem um único erro...mas isso sou eu...

O Guardião disse...

A língua portuguesa é muito maltratada nos nossos dias, e as causas podem ser muitas, mas certamente passíveis de ser ultrapassadas se houver empenhamento. Pode haver inovação, podemos absorver certas inovações linguisticas, mas abastardar a nossa língua por mera negligência é um erro que pagaremos caro.
Cumps

o escriba disse...

Ana Lagartinha
Guardião

Queridos Amigos, eu sou professora de Língua Portuguesa e estou inteiramente de acordo com o referido nos vossos comentários.
Todos os dias é uma luta contra os "bués", "tipo", "a gente vamos", "hadem" e quejandos...

Se penalizo os meus alunos pelo uso destas e de outras, chamemos-lhes, "anomalias"? Claro, claro.

Mas agora reparem de onde vem a "crise" da nossa língua, entre outras fontes: há quatro anos fui correctora das provas de aferição, 6º Ano; apareceu-me uma composição escrita na modalidade de telemóvel, com abreviaturas à mistura; li atentamente e coloquei um zero em todos os itens de avaliação da composição - aquilo não era língua portuguesa; confrontada com mais uns quantos exemplos, a nossa supervisora mandou um e-mail para confirmar a avaliação que os professores tinham atribuído; pasmem, agora, meus amigos: a resposta pronta do ministério foi: abstraiam-se da forma, avaliem o conteúdo e, obrigatoriamente, teêm que dar pontos! Do próprio ministério da Educação! Eu não retirei uma vírgula do que lá tinha posto e aguardei por alguma chamada de atenção~. Não aconteceu nada!

Quando todos os dias somos confrontados com jornais e tv a veicularem palavras e expressões "aldrabadas" e o próprio ministério a fazer prevalecer números para ratios, não temos futuro enquanto língua materna, enquanto pais, enquanto cidadãos e enquanto profissionais do ensino.

Um grande abraço
Esperança

soli-arte disse...

Olá Esperança:)
foi engraçada a maneira como descobriste a Graça. quem diria que um ou dois dias antes eu e a minha irma tinhamos falado acerca de ti.
Claro que falamos bem:)
Tu és uma das pessoas que deixou recordações e és muitas vezes lembradas:)
Apesar de estares longe e já nao ter contacto contigo há 35 anos mais ou menos,nunca foste esquecida.beijos
Teresa

o escriba disse...

Querida Teresa

Ainda me parece uma fantasia estar aqui a "falar" contigo depois de 35 anos. Nem calculas a alegria que tenho sentido nestes últimos dias!


Tudo de bom para ti!
De certeza que vamos conversando!

bjs
Esperança