quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ler, ler, ler...

The Fantastic Flying Books 
of Mr. Morris Lessmore
Vencedor do Óscar para a melhor curta-metragem de animação



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Desabril

Só descontentamento.Tantas coisas me ocorrem, mas todas de puro descontentamento. E desde que li que só em 2000 e picos é que se acabou de pagar uma dívida de estado contraída há cem anos, então aí alguma luz que ainda vislumbrava no túnel apertado do optimismo e confiança, apagou-se por completo.
Quando era criança já ouvia que andava meio mundo a enganar o outro meio, mas agora a coisa refinou-se e basta só um quarto para enganar os restantes três!
 Neste país tão pequeno, a dispersão é cara e inútil, então centre-se e concentre-se tudo. A ordem é para contrair e tudo se vai contraindo, até nos faltar o ar e a esperança.
Num pingpong de palavras, umas off e outras on, os que realmente mandam vão deixando cair pedaços de realidades futuras em declarações parentes do subliminar e os que fingem que mandam apressam-se em explicações e desmentidos que já não convencem.

"Teremos que ver isso. Por agora, por razões constitucionais a duração (dessa medida) é de dois anos, teremos que ver se isto se tornará uma medida permanente ou não", afirmou hoje em Bruxelas Peter Weiss, o chefe adjunto da missão da troika." daqui

"Não existe abusolutamente nada de novo. A suspensão vigorará até ao fim do programa de ajustamento", assegurou Vítor Gaspar." daqui

Está aí Abril. Mas já não tem cor nem flor. Só descontentamento.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Palavras soltas

Aqui há uns tempos falei sobre serenidade e da mais valia que ela representava para a perspetiva que temos das coisas que nos cercam. Como gostaria de dizer que, neste início de ano, a serenidade "é um sentimento que me assiste"! Mas não. Estas são mesmo letras de descontentamento. Poderia enumerar as exaltações, as raivas, os pasmos, as incompreensões, mas só iria agravar o sarilho em que o meu entendimento anda enrolado.
Vá lá, respira fundo...
Hoje, o telejornal de uma das televisões dedicou-se a fazer a apologia do esforço imediatamente compensado, do sucesso que cai no colo de qualquer um, das facilidades que saem ao nosso encontro assim como quem não quer a coisa, do desafio aliciante em que a vida se tornou e onde as palavras austeridade, cortes e aumentos não passam de nomes comuns, abstratos, vagamente contáveis e sem adjetivação que lhes confira relevância.  Estamos mal? Bem, uns menos mal, outros nada mal. Outros ainda só pensam em fazer mal.Refaço a reflexão: alguns de nós estão mal, mas são sempre os mesmos e, pelos vistos, são poucos.
Acresce a isto a nova, ou não tão nova assim, classe emergente de comentadores radiotelevisivos, que da sua "zona de conforto" bem remunerada  dão palpites, explicações, prognósticos e afins, e que fazem empalidecer qualquer resquício de serenidade.Para que servem esses píncaros elevados da filosofia, em cima dos quais nenhum ser humano se pode colocar, e essas regras que excedem a nossa prática e as nossas forças? Vejo frequentes vezes proporem-nos modelos de vida que nem quem os propõe nem os seus auditores têm alguma esperança de seguir ou, o que é pior, desejo de o fazer. (Michel de Montaigne, in "Ensaios - Da Vaidade").
Então, deixa-me cá ir à procura de uma poesiazita, que se não me devolve a serenidade pelo menos traz-me calmaria.

(Não é bem isto que me apetece fazer, mas como anseio tanto que a serenidade me assista...)


Meto-me para Dentro

Meto-me para dentro, e fecho a janela.

Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIX"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

A  RAZÃO DE SER NATAL - Ana Sebastião

A noite caíra há já muito tempo,
A multidão sorria,
Festejava-se neste dia de Dezembro
Mais um Natal!
Natal de presentes
P’ra toda a criança
Mas, como tantos outros,
Um natal de mentira!

Estava frio,
A lua era redonda
Como que para iluminar,
A festa que ia já terminar
Sem nada de novo,
Sem mesmo se falar
Que chegara o Redentor!

Alguém dissera:
“Jesus nasceu”
Mas isso era apenas
Mais um motivo para brincar,
Ninguém ousou exclamar,
Ninguém ouviu dizer:
- Ele veio para AMAR!

A razão da alegria foi esquecida:
Deus enviou–O
Para salvar o mundo!
Jesus um dia nasceu,
Para eu hoje te falar
Que ele te pode salvar,
E não será em vão
Mais uma festa de NATAL!


A Natividade Mística - Botticelli

NATAL DIVINO - Miguel Torga


Natal divino ao rés-do-chão humano,

Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Porque faço Anos...

Três prendas para mim própria: dois poemas e uma canção.


Passado, Presente, Futuro


Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:

Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.


Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"




Não Pode Tirar-me as Esperanças


Busque Amor novas artes, novo engenho

Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.


Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nobel das notícias

Arranca ou não arranca? Quero crer que sim. Vendo bem, material não falta. Desde o bicho que entrou na madeira sem que se notasse e agora, retalhado que está o móvel, não há dinheiro para o conserto, até ao concerto gigante da pedra no rio, onde as nossas melhores vozes, embora que muito apreciadas no momento, são inteiramente desconhecidas do povão do lado de lá! Bendita irmandade, tanto num caso como no outro. Nem o continente é salvação para uns, nem os dois continentes efetivam a tal cultura pluri que floreiam os discursos das chefias quando se encontram. Enfim! Adiante. 
Oiço de relance as notícias de um qualquer telejornal (são as mesmas, com alinhamentos e tudo) e arranha-me os ouvidos a defesa daquela mãe que abandonou o rebento, mas afinal até é muito boa mãe, tão cuidadosa que lhe deu um rebate de consciência e quer o rebento de volta.Ponto final. Os rebentos assumiram definitivamente a sua condição de toysareus e ora vão para a prateleira, ora saem da prateleira.... Céus! se isto não é o fim dos tempos, não sei que diga.
E agora que falei, ainda que discretamente, de dignidade, acudiu-me à mente uma outra notícia que também não deixa qualquer margem para uma reflexão digna, tamanho é o espanto. Ora aqui vai: um miúdo português, esforçado e aplicado ganha uma medalha num concurso que requer altos QI's e deixa o país com o ego puxado cá para cima. Quando quer entrar para a universidade, não entra por umas mísera décimas. A medalha perdeu o significado. O grave é que dias depois, em fases desfasadas da exigência entram alguns com menos qualificação. O medalhado perdeu o significado da palavra justiça. Ele sempre há coisas para lá do sobrenatural, palavra aqui empregue no sentido mais puro - acima do que é próprio da natureza. Outro ponto final.
E por falar em natural, a Academia Sueca premiou um natural...daquele país. O Nobel da Literatura vai para um quase desconhecido em outras paragens que não a sua. Numa breve pesquisa dei com um poema traduzido no Brasil. Vou lê-lo muito atentamente e tentar descobrir dignidades e significados.

Poemas haikai - Tomas Tranströmer


Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Agora o sol se deita.
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.

As orquídeas.
Petroleiros passam deslizando.
É lua cheia.

Fortalezas medievais,
cidades desconhecidas, esfinges frias,
arenas vazias.

As folhas cochicham:
Um javali está tocando órgão.
E os sinos batem.

E a noite se desloca
de leste para oeste
na velocidade da lua.

Duas libélulas
agarradas uma na outra
passam e se vão

Presença de Deus.
No túnel do canto do pássaro
uma porta fechada se abre.

Carvalhos e a lua.
Luz e imagem de estrelas salientes.
O mar gelado.”

Trdução de Marta Manhães de Andrade

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Regresso

Ora já cá estou!Depois de tanto tempo até parece que fiz a Volta ao Mundo em 80 Dias! Não, caríssimos amigas e amigos. As férias foram só aquelas a que ainda vou tendo direito. O bloqueio deu-se na rentrée.Novas regras, novos procedimentos, mas sempre as mesmas "toneladas" de papel, as reuniões, os reencontros e os desencontros. Prontos! (só para rimar). Isto de se tocar vários instrumentos ao mesmo tempo sem desafinar requer tempo e paciência (que já vai faltando). Acrescem a esta vertigem as tróikas, os mercados, os contributos monetários, os apertos e os desalentos. Ah! estava-me a esquecer do Acordo, ortográfico,claro!
Ando a nove e estou feita num oito (e nem sou de Matemática, como uns e outros...).
Como me parecem distantes os dias de descanso, cujo ponto alto era a sesta com a minha Aurora. E ainda nem passou um mês. Enfim!
Mas já cá estou. Tive saudades disto. Não é que faça postes com grandes arroubos críticos ou palavras arrancadas às profundezas da alma, e este ano não foram muitas as produções, mas sempre é um cantinho meu, com uma sala de visitas bem frequentada por amigos que estimo. Obrigada a todos por me darem de vaia!
Fiquem, pois, com a Nina. Também eu faço uma fórcinha para me feel good.