domingo, 6 de fevereiro de 2011

A Cantiga é uma arma...



Parva que Sou

Sou da geração sem-remuneração
e nem me incomoda esta condição...
Que parva que eu sou...

Porque isto está mau e vai continuar
já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou....

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

Sou da geração casinha-dos-pais
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou...

Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou...

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

Sou da geração vou-queixar-me-pra-quê?
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou...

Sou da geração eu-já-não-posso-mais-Que-esta-situação-d­ura-há-tempo-de-mais!
e parva eu não sou!!!

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...


Música e letra: Pedro da Silva Martins

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dia de Reis


Nas torres, olhando os astros,
que viajam pelos céus,
Os Reis Magos viram rastros
do avatar de um grande Deus.

Leram em livros profundos,
que a Caldeia e Assíria têm,
que estava a descer dos mundos
um Deus a Jerusalém.

Cheios de assombro à janela,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrela,
velam noites os reis sábios.

Não querem mais alimento,
nem com rainhas dormir.
Não tomam ao trono assento!
Não mais volvem a sorrir!

Somente olham, sem cessar,
a branca estrela brilhante
como o ceptro dominante
do rei que vai a reinar.

Abraçam a esposa amada.
Dão as chaves aos herdeiros.
Mandam vir seus escudeiros,
Os seus bordões de jornada.

Despejam os seus erários,
cheios de alvoroço imenso.
Carregam seus dromedários,
d´ouro, de mirra, de incenso.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob as palmeiras.

Seguem a luz do astro belo,
que as estradas lhes clareia,
até chegar ao castelo,
do rei que reina em Judeia.

Chegados ao rei cruel,
que de Herodes nome tem,
bradam: «O Rei de Israel
nasceu em Jerusalém?...»

Fica assombrado o Tetrarca,
Diz-lhes tal nova ignorar.
- «Mas, em nome da Santa Arca,
voltai, reis, ao meu solar!»

Seus olhos ficam sombrios:
vê perdido o seu tesouro,
soldados, terras, navios,
da Judeia o ceptro de ouro!

Tomam os reis seus bordões
Levantam as suas tendas.
Carregam as suas oferendas.
Demandam novas regiões.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob palmeiras.

Passam colinas, rebanhos,
campos de louras searas,
quando a lua faz desenhos
no chão das estradas claras.

Passam o quente areal
que a palmeira não conforta.
Eis que a estrela pára à porta
de um decrépito curral.

Descem dos seus dromedários,
cheios de pó os reis sábios.
Descarregam seus erários.
- Mas estão mudos seus lábios.

Rojam as barbas nevadas
Sobre o Deus que adormecera.
Com as mãozinhas rosadas
Da Mãe nos seios de cera.

Seus olhos sentem assombros
e nadam cheios de choro.
- Rasgam seus mantos de ombros.
- Dão-lhe mirra, incenso e ouro.

Esquecem sua nação
mais seus carros de batalha.
- Seus ceptros rolam na palha!
- Seus diademas no chão!

E erguendo seus olhos graves,
perguntam então – olhando
as pombas voando, em bando,
os aldeões, mais as aves:

«É este o rei dos senhores?
Tábua da Lei das rainhas?
Por archeiros – tem pastores.
Por pagens – as andorinhas.»

GOMES LEAL

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS



A todos os amigos e amigas que por aqui vão passando, votos de Boas Festas


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Natal


Quando Um Homem Quiser

Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão


E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão


Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher


Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão


E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão


Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Ary dos Santos

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia a condizer

Almada Negreiros

Esperança:

isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.


Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

 
Miguel Torga
 
Não sei quantos seremos, mas que importa?!

Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Incoerências

Vivemos tempos de incoerência.
Uma das notícias de hoje na televisão apresentava o insólito caso de um casaco velho que levou quatro anos a percorrer os corredores da Justiça ansiando pelo descanso eterno numa qualquer lixeira urbana. A saga envolveu juizes, ministério público, advogados e demais funcionários do aparelho tribunalício. Gastou-se do erário público, desgastou-se mais o desgastado casaco.
Se isto não é o exemplo acabado da incoerência, vou ali e já volto!
Dizem os (des)entendidos que o país atravessa graves necessidades e que é preciso poupar. Então e os gastos?
Hão-de vir por estes dias uns senhores engravatados realizar uma cimeira. Dos proveitos ou proventos que trarão ao país pouco se descortina. Mas vai-se gastar e muito.
Havia antigamente aqui pelos meus lados um ditado que dizia: é como em Monchique, tapa-se a cara e o resto que se trompique...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Acertos...temporários


Li algures na internet que:

« Em 1582, durante o papado de Gregório XIII (Ugo Boncampagni, 1502-1585), o equinócio vernal já estava ocorrendo em 11 de Março, antecipando muito a data da Páscoa. Daí foi deduzido que o ano era mais curto do que 365,25 dias (hoje sabemos que tem 365,242199 dias). Essa diferença atingia 1 dia a cada 128 anos, sendo que nesse ano já completava 10 dias. O papa então introduziu nova reforma no calendário, sob orientação do astrónomo jesuíta alemão Christopher Clavius (1538-1612), para regular a data da Páscoa, instituindo o Calendário Gregoriano.

As reformas, publicadas na bula papal Inter Gravissimas em 24.02.1582, foram:

- tirou 10 dias do ano de 1582, para recolocar o Equinócio Vernal em 21 de Março. Assim, o dia seguinte a 4 de Outubro de 1582 (quinta-feira) passou a ter a data de 15 de Outubro de 1582 (sexta-feira). »

Não sendo nova para mim (e para outros) esta informação, dou comigo a pensar como seria, nos dias que correm, acontecer tal facto.
Provavelmente era o caos, a começar pelas programações das TV's no que a telenovelas diz respeito. Depois seguir-se-iam outras "chatices", nomeadamente, para os aniversariantes desses desaparecidos 10 dias, que ficariam privados das prendas e das festas, já para não falar dos casamentos ou dos divórcios marcados antecipadamente para essa data. E os cheques a descontar nesse intervalo de tempo? Lá se iam os pagamentos e os recebimentos. A falta que esses dez dias nos iriam fazer era qualquer coisa do além!
Só num pormenor estariam na proporção correcta: no corte do ordenado - menos dinheiro ficaria a condizer com menos dias de trabalho! É pena que este encurtamento tenha sido há 500 anos e para um mês só.
Há 5oo anos, estas deslavadas linhas estariam a navegar nas profundezas do Tempo, afundando-se na sua não-existência.

imagens da net

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

E Agora?

Podia escrever aqui bastas letras de descontentamento. Podia, mas... não era a mesma coisa. Andamos de decepção em decepção. Uns parece que conseguem ver a luz ao fundo do túnel, mas outros nem o túnel enxergam, apesar dos encontrões e empurrões.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Acreditar, com Serenidade

Para tudo há um tempo


Debaixo do céu há momento para tudo
E tempo certo para cada coisa:


Há um tempo de nascer e tempo de morrer;


tempo de plantar e tempo de arrancar;


tempo de matar e tempo de curar;


tempo de derrubar e tempo de construir.


Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar;


tempo de chorar e tempo de dançar;


tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las;


tempo de abraçar e tempo de afastar.


Há tempo de procurar e tempo de perder;


tempo de economizar e tempo de desperdiçar;


tempo de rasgar e tempo de remendar;


tempo de ficar calado e tempo de falar.




Há tempo de amar e tempo de odiar;


tempo de guerra e tempo de paz.

Eclesiastes 3:1-8