segunda-feira, 17 de maio de 2010

Crónica de nada

Ai, blog, blog, que te quis diário, ou pelo menos assíduo, e agora para aqui andas a fintar o tempo, falando aos soluços, com pouca vontade de conversar.
Não é que não tenha havido motivos de conversa, serena ou exaltada. Não senhor. Estas duas últimas semanas então...foi um festival, de gritos, de palavras, de discursos.
Houve festa, muita festa vermelha a encher o peito dos adeptos do futebol, que de outro desporto não se costuma tecer tamanhas e alcandroadas glórias.
Glória aos céus, gritaram outros adeptos no fervor das bandeirinhas e das camisas estampadas que receberam o Papa Bento XVI, figura máxima de uma Igreja Católica que se deseja purificada de uns salpicos mal-amados. Fátima foi o altar do mundo, coadjuvada pelas duas capitais do país.
Pouco amado e quase deserto de adeptos andou o Fado durante alguns anos. Ficou fora de moda e andou por aí erradamente aparentado com um nacional-cançonetismo que trazia más memórias. Qual náufrago abandonado à sua sorte que vê aparecer terra no horizonte, o Fado ressurgiu em vozes frescas que passeiam por outras sonoridades e eis que se torna o centro das atenções, deslizando majestoso direito a uma candidatura a património mundial.
E para terminar estas semanas de "F"'s veio o plano de austeridade para salvar este país das incongruências do nada. Uns dizem que sim, que é preciso sacrifícios para remediar a coisa. Uns dizem que não, que quem comeu a carne que roa agora os ossos. Uns dizem que isto está mesmo por um fio. Outros dizem que estamos a crescer mais do que se pensava e que estamos à frente não sei de que fila... É aqui que entra o tal "f" , que eu, por pudor linguístico e não querendo incentivar o uso de mediocridades vocabulares, me escuso de completar.

Afinal, meu bloguesito de estimação, sempre deitaste cá para fora o que aí tinhas guardado. Não era nada, mas sempre ficaste aliviadito.

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E para celebrar o Dia da Literatura da Galiza, recordo um excerto de um belíssimo poema de Rosalía de Castro (A Orillas del Sar)

Adivínase el dulce y perfumadocalor primaveral;
los gérmenes se agitan en la tierra
con inquietud en su amoroso afán,
y cruzan por los aires, silenciosos,
átomos que se besan al pasar.
Hierve la sangre juvenil, se exaltalle
no de aliento el corazón, y audaz
el loco pensamiento sueña y cree
que el hombre es, cual los dioses, inmortal,
No importa que los sueños sean mentira,
ya que al cabo es verdad
que es venturoso el que soñando muere,
infeliz el que vive sin soñar.
¡Pero qué aprisa en este mundo triste
todas las cosas van!
¡Que las domina el vértigo creyérase!
La que ayer fue capullo, es rosa ya,
y pronto agostará rosas y plantas
el calor estival.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Nossa Língua Portuguesa

E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada com um todo senhoril, para cantar é suave com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para escrever cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé da sua antiguidade. E se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.
Francisco Rodrigo Lobo (1580-1622), Corte na Aldeia,Diálogo I
Para quando um Museu da Língua Portuguesa, em Portugal?

sábado, 1 de maio de 2010

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...



Eugénio de Andrade

terça-feira, 27 de abril de 2010

Lembrar Mário de Sá-Carneiro

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Mário de Sá-Carneiro (n.1890-m.26 de Abril de 1916)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Planeta dos Livros

Ontem foi o Dia da Terra Mãe, hoje é o Dia do Livro, daqui a dois dias será o Dia dos Dias Todos. Tanta comemoração, tanto para dizer, para escrever, para reflectir. Mas o tempo não ajuda. Tempo do relógio, tempo do ar, tempo da vida.
A Terra Mãe acenou-nos com um vulcão, aquele de nome indizível, que virou a vida do avesso, esta vida que criámos, montados em tecnologia de ponta e pressa de chegar aos destinos, num destino que ainda vamos a tempo de mudar se respondermos com um sorriso de boa vontade aos avisos que esta Terra nos manda.



Dos Livros, partilho convosco a capa de dois. O primeiro é de um tempo que existiu, em que a inocência e a honestidade nas relações humanas era conta corrente na vida das pessoas. Não o partilho com saudosismo, mas antes como uma terna lembrança.


O segundo recorda um tempo que foi vivido pela minha geração e que terminou em 25 de Abril de 1974. A guerra do Ultramar, não sendo assunto tabu, ainda carrega feridas que não sararam totalmente. É o eterno problema da resolução do passado para se caminhar no presente sem medo do futuro.

E agora deixo Fernando Pessoa falar pela boca de um dos seus heterónimos.

Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura,

a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto

— Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Abril de Novo

Andamos atordoados. Eu, pelo menos, ando atordoada. Abro um qualquer jornal, ligo a televisão num qualquer canal e tudo gira à volta do mesmo grupo de palavras-chave, promovidas a chavões ou bordões de amparo das coisas ilógicas, discrepantes, desconexas: suspeitas e mais suspeitas de corrupção, milhões e mais milhões ganhos só "porque se cumprem objectivos", violência e mais violência insana e inútil. Andamos inundados neste mar de enrolos e vamos tocando a nossa vida, a olhar para o lado e a desejar que o insólito não nos caia em cima e vamos para àquele canal que é perito nessas coisas...insólitas.
Tantos sonhos que tivemos há trinta e seis anos. Uns tornaram-se realidade, outros desmaiaram-se nuns sonhos diferentes, outros continuaram sonhos.
Já tenho dado comigo a pensar que isto de lembrar Abril, vai sendo como as comemorações dos finais das duas Grandes Guerras em que os testemunhos vivos ou já não existem ou são muito poucos e por isso já nada se comemora, passou à história. É a Lei da Vida (e da Morte). Mas uma coisa é arrumar um acontecimento, uma lembrança ,lá muito no passado e outra é pegar nessa herança e capitalizá-la para render no presente e garantir o futuro.
Mas Abril já está aí. Não podemos desistir, nem do sonho nem da herança.


Enfim duma escolha faz-se um desafio

enfrenta-se a vida de fio a pavio

navega-se sem mar, sem vela ou navio

bebe-se a coragem até dum copo vazio

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa

e outra maré cheia virá da maré vazia

nasce um novo dia e no braço outra asa

brinda-se aos amores com o vinho da casa

e vem-nos à memória uma frase batida

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

domingo, 4 de abril de 2010

PÁSCOA

Um dia de poemas na lembrança
(também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Livros Infantis

Para comemorar este Dia do Livro Infantil, partilho convosco uma versão da história do Capuchinho Vermelho, escrita por um jovem meu amigo, o Miguel Francisco, muito dado às letras e com uma inesgotável imaginação e criatividade.



domingo, 21 de março de 2010

Comemorações...

Nestes dias tão cheios de lembranças e comemorações, escolho duas apenas:

DIA MUNDIAL DA POESIA
Arte Poética
Que o poema tenha carne
Ossos, vísceras, destino,
Que seja pedra e alarme
Ou mãos sujas de destino

Que venha, corpo e amante,
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão

Só assim será poema
Só assim será razão
Só assim te vale a pena
Passá-lo de mão em mão

Que seja rua ou ternura
Tempestade ou manhã clara
Seja arado e aventura
Fábrica terra e seara

Que traga ruas e vinho
Berços, máquinas, luar,
Que faça um barco de pinho
E deite um barco ao mar.

José Jorge Letria
LEMBRANDO ELIS REGINA

segunda-feira, 1 de março de 2010

Futuro com Côr

O mês de Fevereiro partiu.Ponto final.
Foi um mês de choros, de raiva, de gritos, de desespero, do escuro e do sombrio. Levantemos a cabeça e sigamos em frente, de mãos dadas com a solidariedade.
Entra Março e a Primavera. Vem aí a côr.
Quando era miúda aí de uns cinco, seis anos, acontecia-me frequentemente reparar que os números e as letras apareciam coloridos na minha mente. Naquelas horas do dia em que não apetece fazer coisa nenhuma e simplesmente ficava quieta nos vidros da janela da sala a mirar o movimento da rua, os nomes das pessoas que passavam, e que eu conhecia, assim como dos objectos, desfilavam na minha cabeça, coloridos. Cada nome tinha a sua cor ou combinação de duas cores. Na escola, os números ou letras, desenhados no quadro negro a giz branco, como que subitamente tomavam cor: o 1 era preto, o três vermelho, o cinco amarelo, o oito azul, o doze branco azulado, o catorze azul claro, e por aí fora. Só muitos anos depois soube que isto tinha nome e que não era a única pessoa a sentir esta estranheza.
Voltemos à côr. O sorriso abre-se de esperança.
Do grande poeta e amigo Vieira Calado
Poema às Cores
Atenta nesta paleta de cores
estes sinais de opulência da luz breve
símbolos que acordam a manhã dos nossos olhos
para a flor do sol
que insistem na múltipla transfiguração
das imagens que dão forma às nossas vidas;
repara no preto e no branco
como se a sinfonia dos acasos
não fosse mais que a simetria dos ocasos
ou no azul que desfalece
os matizes infindáveis do cinzento
que vai nos olhos, no sangue de cada um
porque é o sol magenta dos alvores matinais
que trai os sonhos da madrugada
a reflexão das cores e do entendimento.
Vê como o verde decai
em tonalidades martirizadas pelo ocre e o amarelo
sustentando a linha melódica dos barros;
Observa a cor do céu na fria latitude
dos gelos glaciares,
na transparência da água dos oceanos
resolvida em anémonas e corais de luz.
Atenta no rosa dos frutos da primavera
entre as folhas a captar o sol
para a maturidade corrompida pelo granizo
onde a imagem da noite baila
no esmorecimento das cores e a sua ausência
o negro
o presente persistindo
curvado à sapiência do eterno.
Atenta nas cores
e ouve o timbre os tons da música
capazes de trazer violetas e rosas
ao patamar da eufori
ao clímax de licores de carmim e rosa
em púrpura desfeita virgindade
na face da menina
já mulher.
Lê a tua sina em esmeraldas
e em rubis cristalizados
proscritos até ao fim do tempo
ou o ébano das noites frias
envenenando o brilho diáfano de ametistas e turquesas
que resolvem a cinza em azul e oiro
e vê como tudo se encaminha para um grande abraço
num arco-íris que vincula a terra à terra
o sangue ao rubro sangue das entranhas dum vulcão
que derrama todas as cores,os símbolos e os signos
o magma que há de florescer nas sensações
a percepção subjectiva do real.