sábado, 1 de maio de 2010

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...



Eugénio de Andrade

3 comentários:

Jorge P.G disse...

Eugénio de Andrade, Mario de Sá-Carneiro, Álvaro de Campos... que bom gosto, amiga!

Uma boa semana e um grande abraço.

Cata- Vento disse...

Um dos mais bonitos poemas dedicados àquela que tanto amamos.
E Eugénio de Andrade amou tanto a sua mãe!

Bem-hajas, amiga!

Bjinhos

o escriba disse...

Ora, Ora!!!
Olha quem me veio visitar!
Meus queridos Amigos, Jorge e Isabel, que saudades tenho dos dois!
É que...."mal nos conhecemos inaugurámos a palavra Amigo..." e eu não vos esqueço. São daquelas amizades que se alimentam não da vista, mas das palavras do coração.

Um grande abraço aos dois
Esperança