segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O Vagabundo na Esplanada

O vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo.
Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta.
Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade.
Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.
Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelos simples motivo de ter mais e melhor em que pensar.
O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso lhes acontecia.
Num instante, embora se desconhecessem, aliviava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. No entanto alguém disse:
– Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade.
E assim resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas.
Sem dar por tal, o homem seguia adiante.
Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o sol da tarde quente de Verão.
A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se.
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler.
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: "Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!" Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
– Não pode...
E calou-se. O homem olhava-o com benevolência.
– Disse?
– É reservado o direito de admissão – tornou o rapaz, hesitando. – Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
– Que direito vem a ser esse?
– Bem... – volveu o empregado. – A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
– E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.
– Talvez que a gerência tenha razão – concluiu ele, em tom baixo e magoado. – Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
– Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.
Manuel da Fonseca

20 comentários:

Alfazema Azul disse...

Voltei para falar das minhas gentes, da minha terra, das memórias vivas e reais que perduram na minha alma e no meu coração.

Beijinhos

p.s. Voltarei para ler e comentar

peciscas disse...

Uma saborosa crónica desse grande escritor que foi o Manuel da Fonseca.
De facto, há por aí muita gente que circula entre nós, aparentemente à margem das "normas sociais" vigentes, mas que tem, por vezes, um mundo interior bem rico.

Já agora, aqui fica um apelo.
No próximo dia 15 de Setembro, realiza-se uma blogagem colectiva subordinada ao tema “JUSTIÇA PARA FLAVIA”.
A Flavia é uma jovem, que há mais de dez anos vive em coma, após os seus cabelos terem sido sugados pelo ralo de uma piscina, com um poder de bombagem absurdamente superdimensionado.
A sua mãe, Odele Souza, desenvolve, há longos anos, uma luta, nos tribunais brasileiros, em prol de uma condenação dos responsáveis pelo acidente e pela atribuição de um indemnização justa, que lhe permita continuar a tratar da filha com a dignidade e a qualidade minimamente exigidas.
Deixo aqui um apelo à participação nesse movimento solidário que se expressará no próximo dia 15 de Setembro.
Para já, pede-se a adesão dos blogonautas, através da afixação no seu blog de um selo alusivo e, depois, no dia marcado, pela publicação de um post sobre o tema.
Este selo e mais pormenores poderão ser obtidos no blog de Flavia:

http://flaviavivendoemcoma.blogspot.com/

o escriba disse...

alfazema azul

É muito bem vinda ao meu espaço.

bjs
Esperança

o escriba disse...

peciscas

lembrei-me desta crónica do Manuel da Fonseca a propósito de um personagem que "estaciona" muitas vezes na esplanada aqui do bairro onde vivo.

Li atentamente a sua mensagem sobre a Flávia,cuja situação conheço quer do seu blog quer do blog da Odele que visito.
Certamente que terei muito gosto em participar nesse movimento solidário. Vou buscar o selinho da Flávia.

Um abraço
Esperança

lagartinha disse...

Vim deixar um beijinho, principalmente pela visita. Desta vez, a "avaria técnica" é mesmo comigo...conto que passe rápido, entretanto, já que o analgésico é potente, aproveito para visitar os amigos.
Beijoca grande e até breve

o escriba disse...

Ana Lagartinha

Espero que esses malvados virus vão embora depressinha! Bem que eles poderiam também ter férias!!!


Rápidas e boas melhoras!
bjinhos
Esperança

elvira carvalho disse...

Um belo texto, que apesar de já conhecer se relê com o mesmo prazer da primeira vez.
Um abraço

À margem. Interessa-lhe saber o que é a herança? Passe pelo Sexta
http://6feira.blogspot.com/

o escriba disse...

Elvira

Obrigada pela visita e pelo comentário. Tenho sempre muito gosto em recebê-la aqui no meu espaço.

Um problamazito no meu computador impede-me de abrir algumas páginas, como é o caso do seu blog.Daí não visitá-la há já algum tempo.Assim que resolver a situação vou saber o que é a herança, está bem?

Espero que já esteja bem recuperada da maleita que a apoquentou. Tudo de bom para si.

bjs
Esperança

Sophiamar disse...

Esperança

Uma crónica deliciosa de um escritor que muito admiro e cuja obra quase tenho por inteiro.
Deixo-te beijinhos neste fim de Agosto em que o cansaço está a deixar-me preocupada. Um novo ano de trabalho aproxima-se e há que ter forças para navegar contra ventos e marés.
Bjinhos

Alfazema Azul disse...

Gostei da crónica e da minúcia da descrição feita pelo Manuel da Fonseca.Lembrei-me das suas Crónicas Algarvias e dos Índios da Meia-Praia.Este vagabundo mereceu a minha simpatia talvez por ter conhecido alguns,talvez por ter sempre olhado para eles com ternura, talvez pela benevolência com que sempre os tratei e que me incutiram desde menina. Afinal, os vagabundos são nossos semelhantes e merecem o nosso respeito, a nossa consideração.
Estes, na sua maioria, não provocam os desacatos de que temos ouvido falar com tanta frequência nos últimos tempos.

Beijinhos

o escriba disse...

Isabel

Querida amiga, que alegria ter-te aqui!
Gosto muito do Manuel da Fonseca e este vagabundo veio-me a propósito de uma figura que costuma aparecer aqui no meu bairro.
Vê-lá esse cansaço e cuida-te, amiga.

mtos bjinhos
Esperança

o escriba disse...

alfazema azul

Que nome perfumado!
É bem verdade que este e outros vagabundos, no sentido literal do termo, não são os que causam esses desacatos dos quais temos ouvido falar ultimamente. Uns por opção outros porque a tal os obrigou a vida, os vagabundos têm uma perspectiva muito própria da sociedade e raros são os que investem violentamente contra ela.

Obrigada por ter voltado.
bjs
Esperança

mundo azul disse...

Adorei!!!

Esse é um exemplo claríssimo de que, aquele que está bem consigo mesmo, ninguém vai conseguir atingí-lo...


Beijos de luz!

Jorge P.G disse...

Hahahaha!... Adorei o final desta história.

Manuel da Fonseca, um escritor admirável e menos divulgado do que a sua obra exigiria.

Um abraço, Esperança.

o escriba disse...

mundo azul

Obrigada pela visita e pelo comentário.
Na verdade, quando estamos em paz connosco, estamos em paz com os outros e damo-nos à tolerância, à amizade.

bjs
Esperança

o escriba disse...

Jorge

É o final desconcertante que torna este texto único.

Um abraço
Esperança

Kaotica disse...

Esperança

Uma grande lição o texto do Manuel da Fonseca. Compreendo perfeitamente a reacção do vagabundo em relação aos frequentadores permitidos. As mais das vezes é mesmo isso que acontece: escondidos por detrás de roupagens da moda, gravatas ou falsos intelectualismos encontram-se os piores elementos da nossa mesquinha sociedade.

Gostei de reler.

Um abraço

rendadebilros disse...

Manuel da Fonseca sempre bem-vindo e bem-lido.
Depois das voltinhas de Verão, voltarei mais a miúde...obrigada pela visita.
Bjs.

o escriba disse...

kaotica

Pode crer que o hábito não faz o monge. Cada vez mais vivemos de aparências, cada vez mais somos olhados de viés quando não usamos os chamados "code dress". Esta crónica do Manuel da Fonseca prova-o. As gravatas e os fatos disfarçam (às vezes mal)a mesquinhez e a arrogância.

bjs
Esperança

o escriba disse...

rendadebilros

Espero que as suas voltinhas tenham sido boas. Seja bem vinda!

bjs
Esperança