Já por diversas vezes me dou em frente do computador, tentando actualizar este bocadinho de relax e descanso, mas nada sai. É certo que nestes dois últimos meses, os trinta dias de cada um não chegaram para as encomendas, isto é, foram poucos para o que apareceu para fazer. Mas também é verdade que estes períodos de muito trabalho já fazem parte da família e nunca se fizeram acompanhar desta apatia que se me tem enrolado como cachecol à volta do pescoço. Fervilha a cabeça com as notícias diárias da gripe, do banco, melhor, dos bancos, das vacinas, dos julgamentos sem fim à vista, dos assaltos violentos, das grávidas sem vacina, dos padres com armas a enfeitar os altares exauridos de fé, talvez perdida nas filas intermináveis nos centros de (des)emprego, outra vez da gripe, outra vez dos bancos, dos mil, mil, milhões que voam e os coitados que não sabiam de nada... ufa! Fervilha a minha cabeça, rolam os ohos, mas os dedos recusam a escrever. Ora bolas! Queria encontrar coisas boas para escrever sobre, mas não descortino, assim de momento.
Claro que tenho a minha Aurora, mas não a quero ainda nestas andanças da net, com fotos de todos e mais alguns passos, de beijinhos e mais inhos. O tempo dela chegará com mais modernices tecnológicas, quiçá até escrever só com o pensamento.
Eu sei que há algumas coisas boas por aí que merecem umas linhas. São poucas, sim. Vou descobrir e pode ser que ainda antes do Natal eu as derrame aqui neste bocadito, para relaxar e descansar de novo.
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Mesmo agora descobri um coisa novinha em folha: hoje é o Dia Mundial do Café!!!
Na Praça da Figueira, ou no Jardim da Estrela, num fogareiro aceso é que ele arde. Ao canto do Outono,à esquina do Inverno, o homem das castanhas é eterno. Não tem eira nem beira, nem guarida, e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida, e, se não mata a fome, mata o frio. Um carro que se empurra, um chapéu esburacado, no peito uma castanha que não arde. Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado o homem que apregoa ao fim da tarde. Ao pé dum candeeiro acaba o dia, voz rouca com o travo da pobreza. Apregoa pedaços de alegria, e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas? A estalarem cinzentas, na brasa. Quem quer quentes e boas, quentinhas? Quem compra leva mais calor p'ra casa.
A mágoa que transporta a miséria ambulante, passeia na cidade o dia inteiro. É como se empurrasse o Outono diante; é como se empurrasse o nevoeiro. Quem sabe a desventura do seu fado? Quem olha para o homem das castanhas? Nunca ninguém pensou que ali ao lado ardem no fogareiro dores tamanhas.
Quem quer quentes e boas, quentinhas? A estalarem cinzentas, na brasa. Quem quer quentes e boas, quentinhas? Quem compra leva mais amor p'ra casa.
Resolvi andar na rua com os olhos postos no chão. Quem me quiser que me chame ou que me toque com a mão.
Quando a angústia embaciar de tédio os olhos vidrados, olharei para os prédios altos, para as telhas dos telhados.
Amador sem coisa amada, aprendiz colegial. Sou amador da existência, não chego a profissional.
António Gedeão
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Do Amigo Jorge recebi esta sua produção e ele não me levará a mal por a ter aqui colocado.
Como diria o outro, aguardemos os factos com serenidade e consideremos o benefício da dúvida. Quando se começa logo com uma mentirinha, há que arrumar bem as ideias e o discurso para não haver mais do mesmo.
São letras somadas noutra língua mas a mensagem é universal. Mercedes Sosa foi a primeira a cantar estas palavras numa homenagem a Violeta Parra. Ambas já partiram.
Gracias a la vida, que me ha dado tanto. Me dio dos luceros, y cuando los abro, perfecto distingo lo negro del blanco, y en el alto cielo su fondo estrellado, y en las multitudes al hombre que yo amo. Gracias a la vida, que me ha dado tanto. Me ha dado el odo que, en todo su ancho, graba noche y da ros y canarios martillos, turbinas, ladridos, chubascos, y la voz tan tierna de mi bien amado. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, me ha dado el sonido y abecedario. Con l las palabras que pienso y declaro, "padre,", "amigo," "hermano," y est alumbrando la ruta del alma del que estoy amando. Gracias a la vida, que me ha dado tanto. Me ha dado la marcha de mis pies cansados. Con ellos anduve ciudades y charcos, valles y desiertos, montaas y llanos, y la casa tuya, tu calle y tu patio. Gracias a la vida que me ha dado tanto Me dio el corazn, que agita su marco. Cuando miro el fruto del cerebro humano, cuando miro al bueno tan lejos del malo. Cuando miro el fondo de tus ojos claros. Gracias a la vida que me ha dado tanto. Me ha dado la risa, me ha dado el llanto. As yo distingo dicha de quebranto, todos materiales que forman mi canto, y el canto de ustedes que es es mismo canto. y el canto de ustedes que es mi propio canto.
Duas linhas paralelas Muito paralelamente Iam passando entre estrelas Fazendo o que estava escrito: Caminhando eternamente de infinito a infinito Seguiam-se passo a passo Exactas e sempre a par Pois só num ponto do espaço Que ninguém sabe onde é Se podiam encontrar Falar e tomar café. Mas farta de andar sozinha Uma delas certo dia Voltou-se para a outra linha Sorriu-lhe e disse-lhe assim: “Deixa lá a geometria E anda aqui para o pé de mim…! Diz a outra: “Nem pensar! Mas que falta de respeito! Se quisermos lá chegar Temos de ir devagarinho Andando sempre a direito Cada qual no seu caminho!” Não se dando por achada Fica na sua a primeira E sorrindo amalandrada Pela calada, sem um grito Deita a mãozinha matreira Puxa para si o infinito. E com ele ali à frente As duas a murmurar Olharam-se docemente E sem fazerem perguntas Puseram-se a namorar Seguiram as duas juntas. Assim nestas poucas linhas Fica uma estória banal Com linhas e entrelinhas E uma moral convergente: O infinito afinal Fica aqui ao pé da gente.
José Fanha
O Nicolae, que faz o favor de ser meu amigo, mandou-me este poema do José Fanha.
Por ser tão encantadoramente simples e puro, partilho-o com a minha Telma, que faz anos hoje.