segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ria Formosa

Ria Formosa

Nasci na ria formosa

Sou filha deste sapal
neta da moura de Bias
Sou de Floripes rival
nesta ria fui nascida num dia de claridade
na luz do sol ao meio dia
Em Agosto sou a acalmia
Sou o vento beduíno
o velho o moço o menino
que há em cada pescador Sou o desgosto e a dor
Vela ao senhor dos aflitos
Sou mãe de todos os gritos Padroeira do pavor
que assalta quem é perdido
e de quem teme perder o irmão o pai o marido
Sou a santa no andor em dia de procissão
Sou a rameira de Olhão -
Apelido que a inveja
das puritanas me deu-
Pois da braveza do mar
da escalmorrice da vida me veio a pele sertaneja
e o sangue a ferver no corpo que todo o homem deseja
Sou filha da luz da lua
gerada na noite escura numa cópula sem rosto
Sou filha dos homens todos
e de todas as mulheres Irmã de todas as vagas
Sou amiga das diabas
Sou amante dos diabos e dos ventos desgarrados
atiçados a sueste
que se lançam contra a duna
Sou vulgar e importuna Rainha dos meus humores
no castelo aonde abrigo os corpos dos pescadores
que a maré por devaneio resolve levar consigo
Olho o esteio de cada barco que entra e sai aquela barra
por onde eu saía à garra para depois na enchente
ser levada na corrente
e aos beijos e abraços entrar de novo à deriva
neste berço
nesta ria
que me viu nascer poeta para em meus versos ou prosa
cantar até rebentar este braçado de mar
a que chamaram Formosa.

Julieta Lima, in http://hienas.blogs.sapo.pt/
foto minha

4 comentários:

Vieira Calado disse...

Pois sim!

Conheço bem.

É uma ria muito formosa!

Saudações poéticas

o escriba disse...

Vieira Calado

Esta Ria Formosa vista pela Julieta Lima é realmente bela e poderosa!


Um abraço
Esperança

Isamar disse...

Confesso a minha ignorância mas não conhecia o poema nem a sua autora. Gostei muito. Uma autêntica pérola saída de uma "ostra" da Ria Formosa. Cresci em Faro, conheço bem Olhão, e as suas freguesias, e este poema fez-me desfiar algumas lembranças muito gratificantes.

Bem-hajas, amiga Esperança!
Faltam-me as palavras, esvaziei, mas não deixarei de tentar o meu regresso e de visitar os amigos que não esquecerei.

Bjinhos

o escriba disse...

Querida Isamar

Também descobri esta poetisa (que é de Olhão e aqui mora) há muito pouco tempo. Gostei muito deste poema e pedi-lhe autorização para o postar aqui.É uma pequena pérola poética. Ainda bem que também gostaste!

Tenho muita pena de não te ver nos teus espaços. Sei que eles estão fechados porque volta e meia vou lá espreitar. Tenho saudades tuas. Até o Jorge também se afastou destas lides.
Mas vem sempre que quiseres e puderes: estou de braços abertos.

Um grande bjinho
Esperança