segunda-feira, 1 de março de 2010

Futuro com Côr

O mês de Fevereiro partiu.Ponto final.
Foi um mês de choros, de raiva, de gritos, de desespero, do escuro e do sombrio. Levantemos a cabeça e sigamos em frente, de mãos dadas com a solidariedade.
Entra Março e a Primavera. Vem aí a côr.
Quando era miúda aí de uns cinco, seis anos, acontecia-me frequentemente reparar que os números e as letras apareciam coloridos na minha mente. Naquelas horas do dia em que não apetece fazer coisa nenhuma e simplesmente ficava quieta nos vidros da janela da sala a mirar o movimento da rua, os nomes das pessoas que passavam, e que eu conhecia, assim como dos objectos, desfilavam na minha cabeça, coloridos. Cada nome tinha a sua cor ou combinação de duas cores. Na escola, os números ou letras, desenhados no quadro negro a giz branco, como que subitamente tomavam cor: o 1 era preto, o três vermelho, o cinco amarelo, o oito azul, o doze branco azulado, o catorze azul claro, e por aí fora. Só muitos anos depois soube que isto tinha nome e que não era a única pessoa a sentir esta estranheza.
Voltemos à côr. O sorriso abre-se de esperança.
Do grande poeta e amigo Vieira Calado
Poema às Cores
Atenta nesta paleta de cores
estes sinais de opulência da luz breve
símbolos que acordam a manhã dos nossos olhos
para a flor do sol
que insistem na múltipla transfiguração
das imagens que dão forma às nossas vidas;
repara no preto e no branco
como se a sinfonia dos acasos
não fosse mais que a simetria dos ocasos
ou no azul que desfalece
os matizes infindáveis do cinzento
que vai nos olhos, no sangue de cada um
porque é o sol magenta dos alvores matinais
que trai os sonhos da madrugada
a reflexão das cores e do entendimento.
Vê como o verde decai
em tonalidades martirizadas pelo ocre e o amarelo
sustentando a linha melódica dos barros;
Observa a cor do céu na fria latitude
dos gelos glaciares,
na transparência da água dos oceanos
resolvida em anémonas e corais de luz.
Atenta no rosa dos frutos da primavera
entre as folhas a captar o sol
para a maturidade corrompida pelo granizo
onde a imagem da noite baila
no esmorecimento das cores e a sua ausência
o negro
o presente persistindo
curvado à sapiência do eterno.
Atenta nas cores
e ouve o timbre os tons da música
capazes de trazer violetas e rosas
ao patamar da eufori
ao clímax de licores de carmim e rosa
em púrpura desfeita virgindade
na face da menina
já mulher.
Lê a tua sina em esmeraldas
e em rubis cristalizados
proscritos até ao fim do tempo
ou o ébano das noites frias
envenenando o brilho diáfano de ametistas e turquesas
que resolvem a cinza em azul e oiro
e vê como tudo se encaminha para um grande abraço
num arco-íris que vincula a terra à terra
o sangue ao rubro sangue das entranhas dum vulcão
que derrama todas as cores,os símbolos e os signos
o magma que há de florescer nas sensações
a percepção subjectiva do real.

3 comentários:

Mare Liberum disse...

Finalmente abriu-se uma janela de esperança. Será que esta Primavera terá a cor das outras? Á dúvida existe mas a esperança será a última a morrer.

Que venha um futuro colorido!

Bem-hajas!

Beijinhos

Zé Povinho disse...

Com este tempo cinzento, frio e chuvoso nada melhor do que falar das cores, da Primavera e das flores.
Gostei de ler o Vieira Calado que vou seguindo embora sem comentar.
Abraço do Zé

Vieira Calado disse...

Que agradável surpresa!

Obrigado, amiga!

Bem haja!