terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Para começar Dezembro

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.


Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

8 comentários:

Isamar disse...

Um poema lindíssimo do nosso António Gedeão. É no entanto lamentável que o espírito do Natal ande tão arredado das memórias daqueles, muitos, que o associam a consumismo. Desperdício de dinheiro e tempo em futilidades cujo destino é, muitas vezes, o baú dos monos.
Que o espírito natalício, o genuíno, perdure entre aqueles que nunca esqueceram que Natal é partilha.

Beijinhos

Bem-hajas!

Jorge P.G disse...

Sarcástico e implacável perante a hipocrisia humana e a sociedade do espectáculo, um António Gedeão menos conhecido mas de igual grandiosidade literária e humana.

Parabéns por aqui o ter trazido, Esperança.

Um abraço e um óptimo fim-de-semana.

Zé Povinho disse...

Que posso eu dizer (mais) de Gedeão, que admiro profundamente? O espírito, esse pode até nem ser tão natalício, mas vou fazer um esforço.
Abraço do Zé

lagartinha disse...

Eu sei que a ausência tem sido grande, mas este poema é o mote para a minha mudança de atitude neste ano...vou ser completamente ausente neste Natal e absolutamente presente no resto do ano...
Resolvi adoptar um "pobre" e vou ajudá-lo a refazer a sua vida na medida que me for possível... nem que seja a colar o selo na carta de candidatura de emprego. Já me sinto benemérita e ainda nem comecei...Natal é sempre que o Homem quiser e para mim, começa já amanhã...
Beijocas

Jorge P.G disse...

Pois hoje também é dia de ser bom e vir aqui desejar-lhe um grande fim-de-semana.

E um abraço, pois então!

Jorge P.G disse...

Perdeu a vontade de escrever no blogues, amiga? Que pena!

Um abraço e uma boa época festiva, se não nos "virmos" antes de 5ª feira.

O Guardião disse...

Depois de ler o poema do cientista aproveito para deixar calmamente os meus desejos de Bom Natal.
Cumps

Stella Tavares disse...

Escrevi um livro virtural e o dediquei a todos os seguidores e leitores do manual. Espero que aceitem este singelo presente. Aproveito o ensejo para desejar a todos um natal regado de muita paz e comunhão e um 2010 repleto de paz, saúde e que o melhor se realize. Sempre!
Bjs a todos e até 2010! obrigada pela enriquecedora parceria. Espero que leia e livro e, se gostar, ajude-me a divulgá-lo.
Um lindo natal para você e todos os seus.
http://www.bookess.com/read/2310-o-manual-do-inseguro/