domingo, 6 de julho de 2008

David Mourão-Ferreira

Varandas

Das varandas desta rua,
Há uma que vive nua,
Outra que nem tem lençol.
A terceira é um catavento:
Em Março noiva do vento,
Em Julho amante do sol.

As outras não têm história,
Ou perderam a memória
Ou passam a vida à espera.
Mas há ainda mais uma
Que é confidente da bruma
E prima da Primavera.

Quase ninguém a conhece,
Apenas quando anoitece
Toda ela se alumia.
E no entanto essa luz
Ganha a forma duma cruz
Através da gelosia.


Entre as varandas são tantas,
Há pecadoras e santas,
Umas ricas outras pobres.
Mas não sei se há uma rainha,
Nem direi qual é a minha,
A ver se tu a descobres.


Imagens: Janelas, Maluda



Escada sem Corrimão


É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão,
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.


12 comentários:

Vieira Calado disse...

Uma certa descrição das casas.
É preciso descrever as casas da cidade.
Como elas são... e como eram!
Cumprimentos

Sophiamar disse...

Esperança

Sabes quanto gosto de poesia e por esta, deste professor/poeta que muito estimei, com quem falei algumas vezes,poucas devido à timidez própria dos dezassete/dezoito anos, tenho uma admiração singular.A sua voz era, por si só, cativante, a alegria também, a disponibilidade igualmente, o saber e...todo o conjunto, afirmo-te, tinha a harmonia que em poucos, muito poucos, voltei a encontrar.Quanto às imagens, da minha querida Maluda, com quem várias vezes me encontrei em Faro, cuja família estava, por afinidade, ligada a S. Brás de Alportel, deixam-me de lágrima no canto do olho.
Obrigada, amiga, pela sensibilidade que perpassa nos teus posts e pelo carinho com que aqui sou recebida. Leio-te palavra a palavra com muito gosto.
Bjinhos mil

Bloga Comigo disse...

Um poema ao domingo, mesmo antes do almoço, vem acalhar. O aperitivo que me faltava com a qualidade da Esperança.
O David e a Maluda, um conjunto de quem tem um bom gosto privilegiado.
bjos

rendadebilros disse...

Sempre deliciosa a paisagem aqui, desta vez vista para as janelas... com palavras cheias!!!...
Bom domingo!

lagartinha disse...

Ai que lindo este ultimo poema...Peço desculpa pela minha ignorância, que este não conhecia! Maluda, sim! Tenho algumas destas janelas, que me têm inspirado para vários trabalhos manuais.
Gostei mesmo!
Beijinhos

lagartinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
o escriba disse...

vieira calado

Obrigada pela visita e pelo comentário.

Um abraço
Esperança

o escriba disse...

Querida Isabel

Lembro-me de ver o David Mourão-Ferreira e sempre achar que era um homem com muita classe, muito "charme". Gosto da poesia dele, das que falam da Mulher, do erotismo do corpo, das relações humanas. Estes dois poemas foram musicados. Aliás, David Mourão-Ferreira escreveu outros poemas para fado. O primeiro foi gravado pela grande Fernanda Maria e o segundo brilha na voz do Camané.
Para conjugar com esta poesia só a Maluda, cujos trabalhos espreitam para dentro de cada um de nós e arrastam-nos para deles nos apropriarmos.
Fico feliz por gostares.

bjinhos
Esperança

o escriba disse...

bloga comigo

agradeço-lhe as palavras de verdadeira simpatia.
Bom que o aperitivo lhe caiu bem e tenha gostado do conjunto.

bjs
Esperança

o escriba disse...

rendadebilros

A paisagem desta janela é iluminada pelo sol da minha terra e aquecida pelas palavras dos poetas que gostamos.
Obrigada.

bjs
Esperança

o escriba disse...

Ana Lagartinha

Não tem nada que pedir desculpa. Tal como a menina, partilho as coisas de que gosto e fico contente quando os outros gostam também!

bjinhos
Esperança

Sophiamar disse...

E já levei o teu selo, colega. Já lá estás bem visível a ver o mar...e a nossa Ria Formosa.

Beijinhos