quinta-feira, 22 de maio de 2008

Mia Couto


Melhor que ninguém, Mia Couto sabe recriar palavras e cada uma delas encerra um mundo de significados.



Os filhos desistiram. A Canhoto lhe custava simplesmente existir. Morrer é fácil, difícil é existir-se morto, simplesmente havido, quieto, inestudável. E mais, aliás, menos nada. Tonico ficara assim desde que sua mulher Razia desaparecera, ida sabe-
-se com quem, desconhece-se para onde. Fora há uns anos, mas a ferida era ainda maior que a cicatriz. Quando sucedeu, nesse tempo em que tudo era tudo, Canhoto anunciou aos numerosos filhos:
- Vossa mãe, meus filhos. Vossa mãe, ela faleceu.
Todos sabiam que era mentira. Ela tinha desistido de constar, tentada em mulherar-
se em outros lugares. Deixado o marido em órfã viuvez, desconsolado.
Tinha-se passado tempo, os miúdos cresceram, se graúdaram e se graduaram em pais e mães. O que sobrava agora eram netos. Naquela tarde, fazia anos que a avó saíra. Falecera, como dizia o avô Canhoto. A família se juntava como era costume.


Contos do Nascer da Terra, A Palmeira de Nguézi

4 comentários:

Jorge P.G disse...

Um belo escritor O Mia Couto, em prosa ou poesia, tanto faz!

O quadro é bem bonito! Não sei de quem é, mas gosto.

Um abraço para si e agradeço pelos 2 selos meus que decidiu colocar no seu agradável espaço. Muito obrigado pela gentileza.
Jorge P.G.

Sophiamar disse...

Mia Couto, o moçambicano da minha paixão. Recria a língua a cada dia fazendo dela o organismo que borbulha seiva viva.
Das suas obras, não sei qual delas gosto mais.

Beijinhos

o escriba disse...

Jorge

Andei às avessas e respondi primeiro ao comentário do outro post.

O quadro já o tinha aqui nas minhas coisas mas foi tirado da internet.
Os selinhos são amorosos. Ando a ver se consigo aprender como se fazem para ter um próprio e oferecer aos amigos. Mas lá chegarei.

bjs
Esperança

o escriba disse...

Sophiamar

Que belas letras essas "o organismo que borbulha seiva viva". Lindo!

bjs
Esperança