terça-feira, 20 de maio de 2008

Alda Lara

ALDA LARA (Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou já um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI). Figura em: Antologia de poesias angolanas,Nova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa - Angola, Lisboa, s/d (196?)1; Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963; Mákua 3, idem; Antologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva (c), Lobito, 1973.
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TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
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PRESENÇA AFRICANA

E apesar de todo, ainda sou a mesma!
Livre esguia, filha eterna de quanta rebeldia me sagrou,
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou, a Irmã-Mulher de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros, de cabeleiras verdes
e corpos arrojados sobre o azul...
A do dendêm,
nascendo dos abraços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando pelos carregadores do cais,
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11! ... Rua 11...),
pelos meninos de barriga inchada e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força deste dia...
E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela longa história inconsequente...
Minha terra...
Minha, eternamente ...
Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo,
pura e livre
me levanto,
ao aceno do teu povo!

6 comentários:

Vieira Calado disse...

Olá!
Obrigado pela visita ao meu blog.
Acontece que em tempos escrevi para o jornal Olhanense, sobre astronomia.
Por mais de uma vez o jornal se tem referido a livros meus, particularmente Transpatências, que tem prefácio do Doutor Vilhena Mesquita, Professor da U.A.
A minha relação afectiva com Olhão vem de longe, dos tempos em que o Olhanense estava na 1ª divisão, era eu miúdo.
Muito mais tarde dei aulas em Olhão onde fiz bons amigos.
Recentemente, no mesmo jornal apareceu um poema meu sobre o 25 de Abril, que pode ver no blog, com + ou - essa data.
Vou também adicionar o seu link.
Os meus cumprimentos

Vieira Calado disse...

Digo "Transparências"

Jorge P.G disse...

não me sendo de todo desconhecida, a obra desta autora não pertence ao rol das que li com alguma profundidade.
Já li um ou outro poema e, agora, estes dois, o primeiro digamos que mais universal e o segundo de raíz e cor mais localizadas.
Gosto de ambos, aind aque o últimome seduza mais pela intensidade da narrativa poética da vida africana.

Um abraço.
Jorge P.G.

o escriba disse...

Vieira Calado

Olá

Realmente a minha distracção não tem nome!
Claro que li o poema sobre o 25 de Abril!
Conheço o professor Vilhena Mesquita, pois trabalhei com a esposa, a Armanda, em Faro e considero-o pessoa de grande cultura e saber.
Obrigada pela sua presença aqui no meu canto e por gostar de Olhão.

Um abraço
Esperança

o escriba disse...

Jorge

O poema do Testamento tem uma história curiosa por trás.
O meu Pai cantava Fado e quando era miúda, ouvia-o cantar esta letra numa versão própria do Fado Britinho e ficava fascinada.Cresci e esqueci parte das palavras.
Muitos anos depois quando descobri a poesia de Alda Lara, dei com os versos de que tanto gostava.Infelizmente o meu Pai já cá não estava para me ouvir a mim. Enfim! Coisas!
Mas a poesia da Alda é muito intensa na sua narrativa poética e no seu enquadramento africano.

Um abraço
Esperança

Anónimo disse...

Aprendi muito